Há repertórios que não falham por dificuldade técnica. Falham porque não foram compreendidos por dentro. São executados, mas não interpretados. No coro, interpretar não é apenas resolver alturas, ritmos ou entradas; é entender o sentido interno da peça, aquilo que ela pede do grupo como organismo e não como soma de indivíduos.
Peças corais existem para funcionar no coletivo, mesmo
quando trazem solistas implícitos ou momentos de maior exposição. O coro é um
instrumento, e mais do que isso, é uma resultante, algo próximo de um indivíduo
que surge da soma de indivíduos, mas que só existe plenamente quando esses
indivíduos não desejam se sobressair dentro dele. Quando isso acontece, o som
vira ruído, não porque alguém canta mal, mas porque alguém canta sozinho dentro
de um lugar que exige escuta compartilhada.
Esse é um aprendizado que a música coral oferece com
clareza: o músico não deixa de querer se aprimorar como indivíduo, mas passa a
entender que esse aprimoramento só faz sentido se ajudar o todo a soar melhor.
O protagonismo, aqui, não desaparece; ele muda de lugar. Ele passa a existir no
resultado coletivo.
Cantar bem, no sentido coral, não é cantar bonito. É
conseguir unir a própria voz à do outro em busca de um som resultante. É a
escuta de vários. Não se trata de uma soma de vozes solistas
cantando juntas, mas de um acordo de convivência sonora que se constrói ensaio
após ensaio.
Por isso, não acredito que existam repertórios
“problemáticos” em si. Há repertórios que falham porque o equilíbrio do grupo
não está dado. E equilíbrio não se força, ele se constrói ou se perde. Algumas
peças simplesmente revelam isso com mais rapidez e menos indulgência.
Cantar junto também é confiar. Confiar no tempo do outro, na
integridade do ataque coletivo, na respiração compartilhada. Confiar na entrada que virá, sem antecipar o ataque por aflição. Confiar no gesto do regente, mas
também ao corpo sonoro que se forma à sua volta. Confiar na respiração coletiva.
Nesse contexto, a afinação relacional se torna mais
importante do que a afinação puramente técnica. A afinação de um coro nasce da
combinação entre vozes diferentes, e essa é a essência da polifonia: vozes
independentes que se interdependem. Não há polifonia sem conflito. Há tensões
que se resolvem e há tensões que permanecem, especialmente na música
contemporânea. E tudo isso faz parte do jogo.
O coro, nesse sentido, é também um laboratório de
convivência humana. Nele se experimentam vários sistemas de governo. Não apenas
a democracia está presente. A autocracia também aparece quando decisões
precisam ser tomadas para que algo se realize. Dependendo das escolhas de
repertório, inclusive, corre-se o risco da anarquia. O coro não é utopia, ele é
negociação permanente.
Vivemos hoje um tempo em que a tecnologia otimiza processos.
Ensaios podem ser mais eficientes, produções mais rápidas, resultados mais previsíveis.
Isso é bom para a produção musical, mas nem sempre para a convivência humana, porque menos ensaios significam menos tempo de escuta mútua, menos tempo de
construção simbólica do estar junto. É um equilíbrio difícil, e é uma questão
muito própria do nosso tempo.
Ainda assim, não acredito que o ser humano escape da
necessidade do coletivo. O coro tende a ganhar importância justamente por ser
esse instrumento possível do estar junto. Não penso o cantar coletivo como
resistência heroica, mas como cuidado contínuo. Um cuidado que exige atenção,
escuta e renúncia pontual.
Se conseguimos viver bem num coletivo pequeno, talvez nos
tornemos mais aptos a viver no grande coletivo. Qualquer repertório acaba
revelando o grau de maturidade de um grupo. Quanto mais harmonioso o resultado,
mais evidente é a junção dos indivíduos em favor do todo.
Há músicas que só fazem sentido assim. E talvez seja isso que elas continuam tentando nos ensinar.
Excelente e. necessária análise!
ResponderExcluirObrigado, Sandra!!!
ExcluirSandra Maria Ferreira de Carvalho - sandra.carvalho.bh@gmail.com
ResponderExcluirReflexões muito pertinentes, inclusive na Política onde o "grande coletivo" tem importância fundamental para a construção de uma democracia forte.
ResponderExcluirExatamente!!! Obrigado.
Excluir