(Post escrito por Gustavo Paiva, regente do Coral da Engenharia da UFMG - NMC)
Para um grande corpo musical, a mudança repentina de regente é sempre um tanto quanto caótica. Objetivos, métodos e repertório já conhecidos e consolidados dentro de um grupo substituídos de um ensaio para o outro por algo completamente novo. Nessa situação, fica mais claro do que nunca como é essencial a confiança dos músicos no regente - especialmente em uma prática transparente como o canto, em que cada músculo tensionado, cada respiração incerta ou peso desequilibrado pode ser a diferença entre um fortíssimo e uma voz que desaparece antes de sair do palco. Só não conte isso pros cantores.
Dessa forma, se a mudança de um regente para o outro já causa conflitos, imagine a mudança de um regente para dois regentes, além deles terem pouca experiência cantando em coral e nenhuma regendo e ensaiando um. O Coral da Engenharia testemunhou todo erro e tropeço desses regentes desde o começo de sua jornada. Enquanto tentavam aprender sobre ensino de técnica vocal em grupo, enquanto estudavam a redução para piano do repertório, a lidar com essas pessoas e incentivar a prática musical em conjunto, o coral observava e, para o grande alívio dos dois coitados, acolhia. Pareciam amigos de infância que se encontraram só depois de terem crescido - conversavam com uma naturalidade que dispensava qualquer hierarquia ou responsabilidade. Um coral heterogêneo, formado por estudantes das mais diversas escolas dentro e fora da ufmg, pessoas já formadas e empregadas independentemente da ufmg e pouquíssimos alunos da engenharia (poucos o suficiente para apelidar o coral de “Na Engenharia”, já que “Da Engenharia” tinha pouco), abraçou esses dois moribundos que vieram com o dever de os abraçar.
“Um momento de aprendizado e de distração das coisas burocráticas do mundo externo. Acho que mais que uma apresentação artística é também um momento de conhecer um pouco do melhor que o mundo tem para oferecer, […] e vasta cultura entoada através do canto da arte, que Une formações, pessoas, culturas e experiências diferentes de uma forma leve e divertida para qualquer um”. - Carol Muniz
Esses dois regentes são eu e meu colega Felipe Queiroga, para os que não adivinharam ainda. Tivemos um ano de guarda compartilhada do coral, dividindo os ensaios, as funções e o repertório, chamando convidados da música para dar aulões de técnica vocal (direcionado tanto para os coristas quanto para nós), para correpetir os últimos ensaios e os concertos, para nos apoiar até que conseguíssemos andar sobre nossas duas pernas. Quando isso aconteceu, o Felipe conseguiu ser transferido para o coral de trombones e eu optei por permanecer “Na Engenharia” - com o perdão da piada - com muito alívio e realização no peito por poder contar com esses convidados que aceitaram contribuir com seu conhecimento sem pestanejar: Otávio Assis, Rhaniel Veríssimo, Phil Rezende e Melissa Zuba, para citar apenas alguns. Aproveito para mencionar o duo de contraltos Bambis - Jebs que nos salvaram incontáveis vezes com sua positividade, disponibilidade e vontade de fazer o grupo funcionar, além de estarem cantando em corais a fora, espero eu, graças à Engenharia.
“Participar do coral foi uma das melhores experiências que tive durante esse período da faculdade. O grupo se tornou um espaço importante para eu me acalmar e me distrair diante das tantas matérias difíceis do curso. Além disso, fui muito bem acolhida por todos, o que tornou a experiência ainda mais especial e significativa para mim.” - Adriele
Nesse ano em que eu fiquei integralmente incumbido da gerência do Coral da Engenharia, muitos dos coristas que se juntaram a nós comentaram comigo algumas de suas inseguranças. As vezes, dizem que não tem o domínio da voz o suficiente para cantar conosco, mesmo se tratando de um coral amador. Outros, que não estudam na escola de engenharia, ou na UFMG, ou são velhos demais, ou qualquer outra característica que os distinga dos demais. O que eu aprendi com isso é que se faz necessário sempre um grupo heterogêneo como o nosso. Pessoas de contextos, experiência, idade, histórias diferentes são necessários para que possamos acreditar que a nossa particularidade é força, não obstáculo. Para todos os que entraram no coral da engenharia, inseguros até mesmo de entrar na sala da congregação, julgados pelos olhares de toda a turma de formandos da engenharia dos anos 60 nos quadros da sala anterior, houve sempre uma recepção calorosa, humana e fraterna - especialmente do naipe das contraltos - que sempre os fez sentir em casa. Porque música, ainda mais música coral, não é algo que se faz sozinho, ou mesmo com pessoas iguais. Tanto é esse amor conjunto que eu posso contar com a presença do meu próprio pai em todos os ensaios no naipe de tenores, para não dizer que sou romântico demais ao chamar esse coral de família.
Com isso, aprendi que pertencimento é um luxo que nem todos tem. A Solidão é, para mim, o mal do século e é usada por pessoas horríveis como arma e ameaça para manipular os mais vulneráveis. Se a prática musical, além de todo o seu viés cultural, também é capaz de proporcionar, de maneira respeitosa e saudável, essa sensação de pertencimento, digo, não com um sorriso cor-de-rosa e perfumado, mas com um olhar sério e urgente: o mundo precisa de música.
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