Uma das coisas que mais me surpreenderam durante a pesquisa para o novo livro sobre o Madrigal Renascentista foi descobrir a dimensão das relações que o grupo estabeleceu com instituições públicas para conseguir realizar suas atividades. Em 1967, encontrei um episódio que me provocou, ao mesmo tempo, admiração e certo incômodo político.
No dia 1º de julho daquele ano, o Madrigal apresentou-se na Base Aérea de Belo Horizonte em homenagem ao coronel Afrânio Aguiar. A homenagem tinha uma razão bastante concreta. Aguiar havia sido um importante apoiador do grupo e facilitava, entre outras coisas, a utilização de aeronaves da Força Aérea Brasileira para seus deslocamentos, especialmente nas viagens para Brasília.
Sim: o Madrigal Renascentista viajava em aviões da FAB.
Lido hoje, o fato imediatamente chama a atenção. Estamos falando de 1967, durante a ditadura militar, e de um coro civil utilizando uma estrutura das Forças Armadas para realizar parte de suas atividades. Mas é preciso algum cuidado antes de olhar para aquela situação com os critérios que utilizaríamos quase sessenta anos depois. Hoje, uma relação dessa natureza certamente levantaria questionamentos sobre o uso de recursos públicos e exigiria justificativas, procedimentos administrativos e controles que pertencem ao nosso tempo. Não me parece correto simplesmente transportá-los para 1967.
Além disso, a proximidade do Madrigal com o poder não começou com o regime militar. O grupo já havia construído relações importantes com o Estado desde o governo Juscelino Kubitschek. Em um material de divulgação daquele próprio ano, orgulhava-se de já ter cantado para cinco presidentes da República: Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart, Castelo Branco e Costa e Silva. Presidentes de orientações e circunstâncias políticas bastante diferentes.
Isso demonstra o enorme prestígio que o Madrigal havia alcançado, mas também mostra sua proximidade com os centros de poder. As duas coisas precisam ser consideradas.
O que mais me interessa nessa história é perceber que essa relação também servia aos dois lados. Para o Madrigal, significava uma possibilidade extraordinária de circulação. Transportar um coro é caro e complicado. Estamos falando de dezenas de cantores, num país de dimensões continentais e numa época em que as condições de deslocamento eram muito diferentes das atuais. Ter acesso aos aviões da FAB permitia ao grupo chegar a lugares e participar de acontecimentos que dificilmente estariam ao alcance de um coro com poucos recursos.
Para o governo, entretanto, aquele excelente conjunto musical também tinha utilidade. Um coro com o prestígio do Madrigal podia representar Minas e o Brasil em solenidades, recepções e acontecimentos oficiais. A música ajudava a construir uma imagem de cultura, desenvolvimento e excelência. Durante a ditadura, essa dimensão ganha inevitavelmente um significado político, mesmo que os músicos que estavam cantando não percebessem sua participação dessa maneira.
E aqui está uma distinção que considero fundamental: receber o apoio de uma instituição não significa necessariamente compartilhar de suas posições políticas.
Conheço cantores daquela época que não se identificavam com a ditadura nem com o governo militar. Estavam ali porque eram músicos e porque entendiam que faziam parte de um coro muito especial. Aproveitavam também as oportunidades que aquela estrutura oferecia para fazer aquilo que sabiam fazer de melhor: música.
Essa contradição não me é inteiramente estranha. Em minha própria trajetória profissional, algumas vezes trabalhei com coros de empresas e me vi desconfortável diante da maneira como determinadas instituições se relacionavam com seus funcionários. Em certas ocasiões, o coro era chamado para cantar para a diretoria, mas não chegava da mesma maneira aos próprios trabalhadores da empresa. Eu estava ali para fazer música, mas isso não impedia que percebesse a situação em que aquela música estava sendo colocada.
Talvez essa experiência me ajude a olhar para 1967 com um pouco mais de cuidado.
Não quero transformar os cantores do Madrigal em apoiadores de um regime simplesmente porque entraram num avião da FAB ou cantaram numa solenidade oficial. Seria injusto e historicamente pobre. Também não quero fazer o movimento contrário e tratar aqueles voos apenas como uma curiosidade simpática da história do coro. O Madrigal estava inserido numa estrutura de poder e, ao mesmo tempo em que se beneficiava dela, também podia ser utilizado por ela.
As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.
É justamente isso que me interessa quando encontro documentos como esses. Eles retiram um pouco da facilidade com que, olhando de longe, organizamos o passado entre posições perfeitamente definidas. Na vida concreta, músicos precisam trabalhar, coros precisam viajar, projetos precisam de dinheiro e instituições procuram na arte aquilo que ela pode oferecer também à sua própria imagem.
Em 1967, o Madrigal Renascentista entrou nos aviões da FAB e foi cantar.
Os músicos provavelmente estavam pensando em ensaios, partituras, concertos e na oportunidade extraordinária de levar seu trabalho a outros lugares. O governo certamente enxergava também outras possibilidades naquela música.
Hoje, olhando para trás, consigo admirar a capacidade que aquele coro teve de chegar tão longe. Mas não consigo mais olhar para esses aviões sem perceber também quem os colocava no ar e em que Brasil eles estavam voando.
Aqui JOÃO GOMES Caro Maestro. O Madrigal da foto, completo, é o de 1959 na turnê que findou no Chile. Estou agachado entre o Repórter Ariosto e o poeta Affonso Romano, de camisa branca.
ResponderExcluirO Madrigal acabava de chegar em Buenos Ayres onde ocorreu o episódio da impossibilidade de prosseguir na turnê ou retornar para casa, situação salva pela Aerolineas Argentinas após um concerto na Embaixada Brasileira com a presença do seu Presidente.
ResponderExcluirEntão ainda não havia havido 64...
ResponderExcluirComentários acima de João Gomes de Oliveira.'.
ResponderExcluir