Em 2010 escrevi um texto sobre os pueri cantores. Relendo hoje, ele pede menos explicação histórica e mais escuta do que está em jogo quando falamos de meninos cantores, ontem e agora. E que bom que os tempos mudam as tradições.
“Meninos cantores” são uma tradição antiga, ligada
principalmente às igrejas cristãs, católicas e protestantes. Sempre tiveram um
papel importante na história da música, já que, desde a Idade Média, os coros
das igrejas eram formados por jovens ligados à vida religiosa. Vale lembrar, ou informar, que
as mulheres só puderam cantar nos coros das igrejas, e ainda com muitas restrições, a
partir do século XVIII.
A partir do século XII, a importância dos meninos cantores
aumentou bastante, porque o desenvolvimento da música polifônica passou a exigir
vozes agudas bem definidas, capazes de sustentar linhas independentes. O
problema é que a “vida útil” de um menino cantor é curta: começa por volta dos
sete anos e termina com a mudança vocal na puberdade, o que raramente passa dos
dezesseis anos.
Foi tentando resolver essa limitação que a história dos cantores entrou
num de seus capítulos mais duros. A Igreja Católica, por meio de padres que
tiveram contato com o mundo islâmico no sul da Espanha, tomou conhecimento da
prática da castração. Os eunucos, responsáveis pela vigilância dos haréns dos
califas, tinham voz aguda justamente por terem sido castrados antes da
puberdade. Essa prática acabou sendo incorporada à música europeia durante um
longo período. Felizmente, foi proibida há muito tempo.
O que permanece hoje são os coros de meninos, muitos
deles de altíssimo nível artístico. Esses jovens recebem formação musical
consistente e executam repertórios complexos com naturalidade, fruto de estudo,
disciplina e escuta coletiva.
No Brasil, há um número significativo de coros de meninos e,
de algum tempo para cá, meninas também passaram a integrar esses grupos,
rompendo uma exclusividade histórica que já não fazia sentido. Uma mudança
necessária e muito bem-vinda.
Na região de Belo Horizonte, destaco alguns grupos que
tiveram (e têm) papel importante nesse cenário: os Canarinhos de Itabirito,
o Coral Mater Eclesiae, os Rouxinóis de Divinópolis e o Coral
Dom Silvério.
A voz muda. O corpo cresce. Mas a experiência de cantar em
coro, quando acontece cedo, costuma ficar para sempre.
Tölzer
Knabenchor + Bach + Harnoncourt (2)
A voz muda dos meninos e das meninas. Quando menina sai do coro nesta fase. É saudável passar a transição dentro ou fora do coro?
ResponderExcluirEm outros tempos, se julgava melhor a saída durante algum tempo. Hoje, já se percebeu (e estudos mostram) que não há a necessidade do afastamento, mas é necessário que o regente ou preparador acompanhe o cantor durante o processo. O cantar não traz problemas. O que traz problemas são excessos durante um período em que processos físicos estão acontecendo.
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