terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Como se montava um coro virtual durante a pandemia

Durante a pandemia, dirigi a montagem de vários coros virtuais: do Madrigale, do Coral BDMG, de turmas de alunos da Escola de Música da UFMG e de outros grupos vocais. Ali não se tratava apenas de gravar vozes à distância. O desafio era maior: reconstruir, peça por peça, a experiência coral possível naquele tempo suspenso.

O processo tinha método, e muita gente sempre teve curiosidade em saber como ele funcionava. Então deixo aqui um resumo:

- depois de escolhida a peça, eu montava uma base: a música era tocada com um metrônomo discreto ao fundo. Era o chão comum. Invisível, mas absolutamente indispensável;

- essa base seguia para um quarteto escolhido, que gravava as vozes-guia. Era ali que se estabeleciam respiração, intenção e caráter da obra. A orientação;

- com essa referência, cada cantor gravava seu áudio individual, quase sempre pelo celular. No início, esse era o recurso possível. Com o tempo, alguns cantores foram adquirindo microfones melhores, muitas vezes por causa do trabalho e das aulas online, e a qualidade das gravações foi melhorando muito;

- aí começava meu trabalho mais solitário que era sincronizar tudo em um programa de áudio. Eu tinha que ouvir voz por voz, tirar ruídos, acertar ganhos.  Quando uma gravação vinha frágil, eu aproveitava o que havia de melhor nela. Nada era descartado por descuido; apenas por necessidade; 

- depois, ia montando os naipes virtuais alinhando ataques, equilibrando as vozes, ajustando durações, corrigindo pequenos desvios, que eram inevitáveis. E aí havia ainda um detalhe fundamental: eu tinha que equalizar a partir da memória sonora, a memória do som real daquele coro, daquele naipe, daquela sala que já não existia naquele momento. Na sequência, mixava e masterizava;    

- com o coro “montado”, o áudio final seguia para os cantores. Era hora do vídeo. Cada um gravava sua imagem seguindo orientações precisas da equipe de produção: enquadramento, luz, gesto, intenção, figurino. Nada era aleatório. Cada montagem tinha um script muito organizado;

- por fim, a equipe de vídeo fazia o trabalho final. Costurava imagens, criava o mosaico, dava forma visual àquilo que já existia como som e como desejo de estar junto.

Era assim. Não era simples. Não era rápido e, certamente, não substituía o ensaio presencial. Mas era o que podíamos fazer... e penso que fizemos bem.





 

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