Este blog traz muito da minha história. Isso é importante para mim porque cria um arquivo de memórias e documentos que posso revisitar no futuro. Além disso, me permite observar, com alguma distância, o movimento coral de Belo Horizonte ao longo dos anos, um movimento do qual passei a fazer parte a partir de um certo momento.
Revirando alguns papéis, encontrei este documento. O ano era
1984. Eu tinha 17 anos e regia um coro no 3º Encontro de Corais Infantis e
Infanto-Juvenis de Minas Gerais, realizado em outubro daquele ano, no Auditório
do Colégio Santo Agostinho, em Belo Horizonte. O programa, por si só, é
daqueles registros que dizem muito mais do que aparentam à primeira vista.
O evento, promovido pela Federação Mineira de Conjuntos
Corais, revela um movimento coral regional vivo, articulado e ambicioso. Havia
forte presença de coros infantis e juvenis, repertório diverso e uma rede de
regentes que formava, ao mesmo tempo, músicos e público. Não se tratava apenas
de reunir crianças cantando. Havia projeto, repertório pensado e a
compreensão de que coro infantil não é sinônimo de música simples.
O programa impressiona ainda hoje pela variedade: música
antiga, polifonia renascentista, cânones internacionais, folclore brasileiro e
estrangeiro, música popular brasileira, spirituals, arranjos
contemporâneos. Um mosaico amplo, tratado com seriedade artística.
É nesse contexto que aparece um jovem regente, ainda no
início do percurso, já inserido num movimento coral regional consistente e,
sobretudo, atrevido no repertório. À frente do Coral Dom Silvério, eu já regia renascenças (que atrevimento!!!) como Super Flumina Babylonis, de Palestrina, e Teresica Hermana, de um compositor anônimo, além do arranjo de Carlos Alberto Pinto Fonseca sobre Vassourinhas.
Um gesto claro: não vim aqui pra brincadeiras corais.
Esse atrevimento não nasceu do nada. Ele se insere num
ambiente fértil, povoado por regentes que se tornariam figuras centrais da
história coral de Belo Horizonte. Nomes como Maria Amália Martins (Malinha), Edla
Lobão Lacerda e Elza do Val Gomes representam uma formação ligada aos
principais coros do país. Ernani Maletta, Flávia Campanha, Elba
Valéria e Vito Duarte são colegas de longa data na tentativa de dar
continuidade ao que os mais antigos nos deixaram. Todos agentes ativos de um
mesmo ecossistema musical.
Lembrar daquele encontro reforça uma constatação simples: ninguém
se forma sozinho. Um jovem regente se constrói porque existe um campo em
funcionamento, com concertos, encontros, repertórios circulando, ideias sendo
testadas. O atrevimento só é possível porque há sustentação coletiva.
Visto hoje, esse evento é o retrato de
um momento em que Minas Gerais investia seriamente na formação coral desde a
infância, sem medo de repertório, sem paternalismo musical, sem reduzir a arte
ao que se supõe “adequado”.
Que bom ter guardado esse "papel". Isso porque há documentos que registram datas, outros registram processos. Este é um deles.
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