Hoje é o dia mundial do compositor. E não deixa de ser curioso que se reserve um dia específico para quem passa a vida inteira lidando com algo que nunca se resolve completamente: a criação.
Ser
compositor é aceitar uma condição ingrata. É ser responsável por um número
imenso de filhos, muitas vezes, sem pai reconhecido. Filhos que circulam pelo mundo, às vezes
crescem, às vezes são esquecidos, às vezes fazem sucesso sem que ninguém se
pergunte de onde vieram. E, para completar, o compositor ainda precisa disputar
atenção com uma multidão de pessoas que, no nosso tempo, também se dizem
compositores, ainda que confundam criação com arranjo ocasional, com repetição
bem-sucedida ou com simples coincidência sonora.
Há algo
difícil de explicar a quem não vive isso de dentro: a maior parte do que se faz
hoje já foi pensada, testada e transformada muitas vezes ao longo dos séculos.
Isso não invalida a criação contemporânea, mas exige consciência histórica.
Criar não é inaugurar o mundo todos os dias. É dialogar com ele.
Vivemos um
tempo em que a palavra cantada muitas vezes se sobrepõe à música. Canções
pobres do ponto de vista musical tornam-se grandes sucessos porque o texto
“funciona”, porque a imagem é sedutora, porque há um vídeo, uma coreografia,
uma narrativa pronta para consumo. Se o texto fosse apenas lido, talvez não
sobrevivesse. Se a música fosse apenas ouvida, talvez não se sustentasse. Mas o
pacote funciona, e isso basta. Felizmente, a boa qualidade ainda se mantém e cabe a nós escolhermos bem o que consumimos nesse mundo do capital.
Também não
faço apologia ao outro extremo: o do compositor que acredita que complexidade é
sinônimo de profundidade. Aquele que escreve para provar algo, para exibir
técnica, para alimentar o próprio ego. Quiálteras, mudanças de compasso,
estruturas intrincadas que não comunicam nada além do esforço de parecer
original. Esquece-se, às vezes, que criação também é gesto de oferta. Que a
música, mesmo quando desafia, precisa dizer alguma coisa a alguém.
Ainda assim,
e talvez justamente por isso, hoje é dia de homenagem.
Homenagem a
todos os que insistem em criar. Aos que acertam muito, aos que acertam pouco,
aos que ainda procuram. Porque a essência da criação é o que movimenta o mundo.
É ela que impede o tempo de se tornar apenas repetição.
Que cada um ouça o compositor que lhe fala mais de perto. Eu, daqui, ouço a minha compositora preferida e do coração, que fez essa linda música, hit dos casamentos pelo Brasil a fora, mas ninguém sabe que a composição é dela.
🎵 Nossos Planos (Lívia Itaborahy)
Achei muito interessante a postagem, Maestro. Que você continue a nos brindar com as execuções das maravilhosas composições musicais!
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