segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O coro como microcomunidade (uma reflexão)

Fala-se muito de coro a partir do resultado (concertos, repertório, qualidade sonora) e pouco do coro como lugar de convivência. Ao longo dos anos, regendo diferentes grupos, fui percebendo que o que sustenta um coro nem sempre aparece no palco, porque antes do som, há relações; antes da afinação, há acordos. Pensar o coro como microcomunidade é tentar nomear esse território invisível, feito de fragilidades, pactos e silêncios, e é a partir daí que tudo começa.

Antes da ideia de cantar, antes mesmo da ideia de cantor, existe uma pessoa. Pessoas diferentes, com histórias, fragilidades e desejos distintos, que em algum momento da vida decidem cantar num coletivo. As motivações raramente são puramente musicais. Pode ser o som, mas pode ser o pertencimento; pode ser a vontade de escutar melhor, a si e ao outro; pode ser a busca por alguma ordem possível na vida. O coro acolhe tudo isso. Ele permite mistura e também algum grau de escondimento. Por isso nunca é totalmente claro se alguém chega a um coro pelo canto ou pela necessidade de estar junto. Talvez o coro comece, de fato, antes do som.

Com a entrada no coro, surgem os pactos. Promessas explícitas ou implícitas: pontualidade, dedicação, lealdade, silêncio, autonomia, compromisso com o coletivo. Esses pactos podem vir do regente, do grupo, da tradição ou até de um estatuto. Pela experiência, penso que a quebra desses pactos costuma ser consciente, não por má-fé, e, no fim, quem precisa reconhecer essa quebra é o regente. Talvez o maior conflito coral aconteça quando as regras continuam existindo, mas o sentido delas se perde.

É aí que o coro se revela um lugar curioso. Ninguém está completamente exposto, mas ninguém está completamente protegido. Dependendo do grupo, um cantor inexperiente pode ser acolhido, acompanhado, quase apadrinhado. Em outros contextos, pode ser cobrado desde o primeiro ensaio, em nome da tão invocada excelência, palavra que hoje precisa ser sempre interrogada. Excelência segundo quem? Segundo quais critérios? 

Essa pergunta leva a outra, ainda mais delicada: o que é mais frágil num coro: a afinação técnica ou o sentimento de pertencimento? Pela vivência, quase sempre é o segundo. A harmonia de um coro nem sempre se estabelece apenas pela afinação das notas, mas pela afinação das relações. O coro ensina a errar em público. Nem sempre de forma confortável. O grupo pode sustentar quem erra (e deveria fazê-lo), mas nem todo coro suporta a imperfeição humana que a música revela. Idealmente, deveria, mas, na prática, muitas vezes não suporta. A permanência ou a saída de cantores costuma estar ligada a isso: idade, cansaço, mudança de voz, desgaste com os processos, perda de sentido.

Por isso, nem tudo num coro se resolve cantando. Há coisas que não são ditas, embora todos saibam. Há conflitos que se dissolvem momentaneamente pela entrega musical, pelo concerto, pela sensação de dever cumprido em nome do coletivo. Mas há também silêncios que são pura omissão; há silêncios que mantêm a música de pé, mas derrubam pessoas; e há silêncios que sustentam a instituição. Distinguir uns dos outros talvez seja uma das tarefas mais difíceis da vida coral.

Nesse organismo, o regente nunca é neutro. Ele é mediador, autoridade, escudo e espelho. Quando protege o grupo, muitas vezes se coloca para sustentá-lo. No curto prazo, isso funciona. No longo prazo, cobra seu preço. Reger é também regular tensões. Muitas decisões musicais, escolha ou exclusão de repertório, por exemplo, são tomadas para evitar conflitos humanos. Toda decisão musical é, em algum grau, uma decisão política dentro da microcomunidade.

Talvez por isso o coro seja algo deslocado do tempo em que vivemos. A vida contemporânea premia o indivíduo, o coro insiste no coletivo. Sempre tive como princípio não permitir que um coro fosse apenas lazer. A formação, ainda que somente técnica, é necessária. Faz parte do papel do regente não deixar que um grupo acredite ser mais do que é, mas também não permitir que ele se acomode aquém do que pode ser. O crescimento precisa ser constante e consciente.

Para mim, um coro não é, e nunca foi, utopia. É exercício permanente de negociação. E talvez por isso ele seja tão valioso.

Ficam, para mim, duas perguntas abertas: o coro existe para fazer música ou a música existe para sustentar o coro? E, o que mantém um coro de pé quando já não há concerto marcado?

Essas respostas nunca são definitivas. Mas é nelas que a vida coral se sustenta...




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