No concerto de música sacra de 2008, o Madrigale encerrou o programa com o Salmo 150, de Ernst Widmer. Essa é uma daquelas obras que pedem expansão total. Ela não nos conduz ao recolhimento ou ao silêncio interior. Ao contrário: é uma explosão de som que chama o corpo, a respiração e o gesto coletivo para o centro da cena.
Eu penso que Widmer usou o texto bíblico como matéria viva. Para ele, a palavra não foi pretexto para a música, mas o seu motor. O Salmo 150, último do Saltério, não explica nem comenta, ele ordena. Louvai. Louvai com tudo o que soa. Louvai com instrumentos, com voz, com o corpo inteiro. Louvai enquanto ainda há fôlego (no sentido mais literal da palavra). A música acompanha essa ideia sem suavizar nada. Não há aqui uma melodia “cantável” no sentido tradicional, daquelas que se levam para casa distraidamente. O que se constrói é um campo rítmico intenso: ataques secos, acentos deslocados, blocos sonoros que se chocam e se reorganizam. A sensação é de movimento contínuo. A harmonia não busca conforto; ela serve à palavra, acompanha sua urgência, nunca o contrário.
Para o coro, é uma peça difícil. Cada entrada pede atenção
absoluta ao conjunto; cada ataque exige precisão coletiva; cada respiração
precisa ser pensada como gesto comum. O texto não tolera individualismos e o louvor aqui só existe quando todos se tornam um só corpo sonoro. Encerrar um
programa sacro com Widmer é dizer que o sagrado também pode ser tensão, pulso,
vigor e presença física. Que fé, quando cantada, não é apenas contemplação, é
ação organizada no tempo.
Talvez seja isso que torne essa obra tão atual. Widmer não escreve uma música sacra presa à ideia de passado ou de tradição idealizada. Ele escreve a partir do agora, do corpo presente, da fricção entre texto, som e movimento. Cada “louvai” soa quase como um impulso para frente. E talvez por isso essa peça permaneça tão viva na memória. Porque não se limita a ilustrar um texto bíblico. Ela realiza o texto. Faz com que o coro, e quem escuta, experimente, ainda que por alguns minutos, o que significa louvar com tudo o que respira.
E quando a última sonoridade se dissipa, não fica o silêncio
pacificado. Fica o corpo desperto. Como se a música dissesse, com simplicidade:
enquanto houver fôlego, ainda há o que cantar.
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