(Ainda pensando nos meninos do post de 12/02/26)
Ao ouvir Henrik Brandstetter e Iker Jahn Valenzuela naquele dueto de Bach, é tentador concentrar tudo nas vozes: a pureza do timbre, a segurança técnica, a maturidade interpretativa. Mas isso seria olhar apenas para a superfície. Por trás dessa performance há algo mais decisivo: um coro que forma antes de exibir.
Meninos cantores não surgem prontos. Eles são construídos
lentamente, em um ambiente onde a voz individual importa, mas nunca se separa
do coletivo. A tradição coral à qual pertencem (e aqui o nome do coro é menos
importante do que o método) entende que cantar bem não é apenas emitir som com
beleza, mas saber escutar, esperar, ajustar-se.
O que se ouve nesse dueto é resultado direto disso. A
afinação precisa, o equilíbrio entre as duas vozes, a clareza de articulação do
texto e, sobretudo, a atenção ao sentido teológico da palavra não nascem de
decisões isoladas. São fruto de uma cultura coral que valoriza o estudo, a
disciplina e a responsabilidade com a música.
Há também algo fundamental: esses cantores aprenderam desde
cedo que a voz não é propriedade privada. Ela pertence a um projeto maior.
Mesmo quando estão em destaque, carregam consigo a escuta do conjunto, o
respeito à linha do outro, a consciência do todo. Isso é aprendizado coral em
seu estado mais profundo.
Em tempos em que a formação musical frequentemente se
orienta para a exposição rápida e para o brilho individual, esse tipo de
trabalho chama atenção justamente por seguir outro caminho. Um caminho mais
lento, mais exigente, menos espetacular e, por isso mesmo, mais sólido. A
técnica é construída junto com a compreensão histórica, linguística e simbólica
da música que se canta.
É impossível separar essa performance da atuação pedagógica
e artística de quem sustenta o coro no dia a dia. A figura do regente, do
preparador vocal, do educador musical aparece ali não como protagonista, mas
como estrutura invisível. O resultado é um canto que não força, não exagera,
não teatraliza em excesso. Um canto que confia na música.
O que mais me impressiona é a naturalidade com
que algo tão complexo se apresenta. Quando o coro funciona de verdade, ele
produz esse efeito, faz parecer simples aquilo que é profundamente elaborado.
Esse dueto de Bach não é apenas um belo momento musical. É
também um lembrete silencioso do que o trabalho coral pode ser quando é pensado
como formação humana, musical e coletiva. Antes da voz, vem o coro. Antes do
solista, vem a escuta. E quando isso está bem assentado, a música acontece.
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