sexta-feira, 3 de abril de 2026

O que aprendi com as Sete Palavras (por Luan Soares)

(Escrito por Luan Soares, que regeu um concerto com o Coro Madrigale no dia 01/04/2026)



O universo da regência permanece, para mim, um mistério. No início dos estudos, tudo parece orbitar uma certa objetividade técnica: praticamos gestos preparatórios, padrões métricos, entradas e cortes. Mas, em certos momentos, a música rompe o limiar do funcional. “Música é metade ciência, metade magia”, diz o meu professor, Arnon Oliveira.

Lembro-me bem de quando estudei o Requiem de Brahms com ele ao piano. Falávamos sobre o caráter de cada frase e, de repente, não era mais sobre música, mas sobre os mistérios da vida e da morte, sobre as lágrimas de felicidade e a resistência da esperança. Ali, o gesto adquiria um novo sentido.

Ontem, ao reger As Sete Palavras, de Hostílio Soares, essa sensação retornou com uma força descomunal. O contexto não poderia ser mais especial: em plena Semana Santa, tive a oportunidade de conduzir o Coro Madrigale, que mantém esta obra como tradição desde antes de eu nascer, quando o Arnon deu início ao resgate da produção de Hostílio. Foi com este mesmo coro que ouvi a obra pela primeira vez, um marco que influenciou toda a minha trajetória acadêmica. Tendo escolhido o Hostílio Soares como objeto de pesquisa, eventualmente me vi envolvido na missão de editar As Sete Palavras. Foram tantos meses mergulhado em manuscritos, analisando rascunhos, comparando e copiando versões da partitura que me familiarizei com a música (pelo menos intelectualmente). 

Mas enquanto o meu lado editor buscava um distanciamento sóbrio em relação à obra, o palco, o coro e a regência requeriam um outro tipo de relação. Digamos que precisava ser um editor apolíneo, mas um regente dionisíaco. Para encarar a dramaticidade dessa peça, que canta as últimas mensagens de Cristo, senti que precisava me desvencilhar do modelo técnico de regência e permitir que cada gesto nascesse de dentro, moldado pelo significado das palavras. Pode parecer um pensamento romântico, confesso, mas foi absolutamente necessário.

Marcando também o meu reencontro com a regência coral (me dediquei quase exclusivamente à orquestra desde 2019), esse concerto me fez dispensar a batuta, reger com as mãos livres, como se a regência se tornasse uma experiência tátil. O Arnon já havia me alertado que esta obra carrega um ponto de inflexão espiritual. Ele estava certo. Passamos pelas três primeiras palavras com profunda reverência, mas na Quarta Palavra, “Deus meu, por que me abandonaste?”, algo mudou. Entre cada clamor, abre-se um abismo silencioso, sem resposta. Em cada pausa, sentimos a angústia da ausência. Com o solo de contralto, fiquei vulnerável. Dali em diante, eu já não regia notasregia sensações

Em especial, a curtíssima Quinta Palavra, Sitio - tenho sede, me levou a refletir sobre a humanidade de Cristo, que compartilho aqui. Na passagem de João 4:14, Jesus oferece à mulher samaritana a Água Viva, essa que, quem a beber, jamais terá sede. No entanto, é justamente na cruz, abandonado pelo Pai, que Cristo experiencia essa sede que não é apenas física, mas espiritual. A música de Hostílio nos deixa exatamente diante dessa realidade com o árido solo de baixo ao final.

Às vezes penso que, ao fim de obras tão profundas, todos deveriam retornar para casa em completo silêncio. Foi estranho terminar a peça e voltar ao "mundo real". Fiquei tão desnorteado com os ritos dos agradecimentos que precisei da ajuda dos cantores, a quem agradeço imensamente, e cheguei a tropeçar ao deixar o palco.

Esse concerto significou muito para mim, e certamente eu precisaria de mais tempo para processar as nuances. Mas preciso dizer que essa oportunidade, proporcionada pelo Arnon Oliveira, pelo Coro Madrigale e pela pianista Patrícia Valadão, apareceu num momento chave. E aqui peço licença ao leitor para um desabafo absolutamente pessoal.

Logo após concluir minha graduação, busquei experiência profissional e aperfeiçoamento da regência, mas me deparei com um mercado cada vez mais repleto de disputas de ego, conflitos e oportunismo, em que ser "Maestro" parecia ser mais uma busca por status do que estar a serviço da Arte. (Pai, perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem). Desde então, eu estava completamente desencantado com esse universo e me esqueci dos verdadeiros motivos que me levaram à Música.

Seu Hostílio me salvou. Ao pesquisar a sua obra, ler suas cartas e folhear seus documentos, foi como se tivesse feito um amigo; um compositor que dedicou sua vida à sua arte e se recusou a participar das querelas por um lugar ao sol. Ele, apontado como pessoa corretíssima por todos que o conheceram, tinha a convicção de que sua música deveria refletir seus ideais teosóficos, dizia que a música não tem pátria, e era incapaz de se envolver em qualquer empreitada em que ocorresse alguma injustiça, como me contou o maestro Oiliam Lanna.

O fato de eu ter nascido em 1998, exatos 100 anos após Hostílio Soares (1898), e de compartilharmos o mesmo sobrenome pode ser apenas coincidência, mas, inspirado pelo seu próprio esoterismo, gosto de pensar que eu estava destinado a conhecê-lo, para que eu pudesse relembrar, através da sua música, o verdadeiro sentido do reger, que é a busca por esse “algo a mais” das experiências únicas como o concerto de ontem; e por que não dizer, o sentido do bem viver?

 

Descobri, com ajuda do Mestre Hostílio, que não compensa desejar o status ou as posições à frente das grandes orquestras. Esse até pode ser o sonho de alguém, mas não o meu. Além disso, penso que isso seria querer que a música me prestasse um serviço. Antes, quero servir à música. Em que posso ser útil? Uma das formas que encontrei de servir à música é realizar esse trabalho de resgate do seu legado, através da pesquisa e também da regência, acrescentando ao menos uma meia página à nossa história. Nesse sentido, o valor desse concerto de ontem é imenso. A confirmação? Foi a experiência no palco, diante do coro: em cada uma das Sete Palavras um sentimento de pertencimento e de realização indescritível.


  Luan Soares é bacharel em Regência pela Universidade Federal de Minas Gerais e mestrando em Performance Musical, com enfoque no resgate e na edição de música brasileira de concerto. É Regente da Orquestra Jovem Barão de Cocais. Atuou à frente
 da Orquestra Jovem do CMI e como regente assistente da Orquestra de Câmara Inhotim
.







Um comentário:

  1. Querido Luan, me emociono muito ao ler seu texto, nesta sexta-feira, dia tão forte, significativo, importante para os cristãos. Que Deus o abençoe sempre em sua carreira, a serviço da Música, e que Ele esteja sempre presente no seu fazer da Música, ela a serviço d'Ele. Abraço da Luciana

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