No início de 1960, devido às ausências de Isaac Karabtchevsky, que se dividia entre o Brasil e a Alemanha por causa de seus estudos, o Madrigal Renascentista recebeu temporariamente o regente Marco Dusi. Italiano radicado no Chile e já então reconhecido como músico de prestígio, Dusi veio a Belo Horizonte por convite ligado à viagem que o coro fizera ao Chile no ano anterior(1), com o objetivo de fortalecer o intercâmbio cultural entre os dois países.
Durante os dois meses em que permaneceu na capital mineira, realizou um trabalho de apuro técnico e ampliação do repertório do grupo. Além de dirigir concertos na cidade, Dusi estabeleceu uma parceria com a TV Itacolomi, inserindo o Madrigal em sua programação regular.
Sua despedida ocorreu em 10 de março, em concerto no auditório Izabela Hendrix, marcado pela exigência do repertório apresentado, que combinava obras renascentistas com música sul-americana. Essa abertura ampliou o horizonte do coro, que passou a assumir também a tarefa de conhecer e difundir a produção musical dos países vizinhos, e não apenas a tradição europeia.
Nesse contexto, o Madrigal Renascentista se afirmava como um ponto de confluência de tendências diversas, por vezes até contraditórias, o que ajuda a explicar a singularidade de sua trajetória. Mesmo sendo um grupo de elite e contando com apoio institucional, experimentou também a exposição à popularidade, colocando-se em contato com diferentes públicos e realidades.
A circulação constante, o contato com novas “paisagens sonoras” e a troca contínua de repertórios e práticas funcionaram como uma verdadeira formação em movimento, ampliando horizontes e refinando o conjunto. Mais do que acumular experiências, esse processo impediu a acomodação: o coro era continuamente colocado à prova, e é justamente aí que parece residir parte essencial de sua força.
A passagem de Marco Dusi deixa, ainda, um dado particularmente revelador: sua maneira de ensaiar. Em vez de conduzir longamente uma única obra, trabalhava trechos curtos com intensidade, interrompia antes da saturação, alternava peças de caráter distinto e retomava posteriormente o material já explorado. Havia, nesse método, uma atenção constante à escuta, à variedade e à concentração, evitando a monotonia e mantendo o coro em estado ativo de percepção.
Somava-se a isso o cuidado individual com as vozes e a dimensão pedagógica de seu trabalho, que incluía formação de regentes e cantores. Mais do que um aperfeiçoamento pontual, tratava-se de uma forma de pensar o ensaio como espaço de construção contínua, dinâmica que deixaria marcas duradouras na prática coral que se desenvolveu a partir dali.
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