quinta-feira, 30 de abril de 2026

Quando o Madrigale cantou o Requiem de Mozart pela primeira vez

O telefone tocou e era o Pe. Sérgio Palombo.

Ele explicou: a Basílica do Santo Cura d'Ars completava cinquenta anos, e ele queria que o Madrigale participasse de duas cerimônias. Uma para celebrar o jubileu — cantaríamos um Te Deum. A outra para lembrar os que haviam construído aquela história e partido. E então ele disse, com a tranquilidade de quem pede algo perfeitamente razoável, que gostaria que cantássemos o Requiem de Mozart.

Fiz silêncio.

Não era modéstia nem hesitação retórica. Era genuína surpresa. O Requiem de Mozart não estava nos nossos planos — não naquele momento, não naquele ano, talvez não naquela década. Havia em mim, e eu sabia que havia também nos cantores, um respeito quase reverencial por aquela obra. O tipo de respeito que adia. Pedi ao Pe. Sérgio um tempo para consultar o grupo, e foi o que fiz. Todos concordaram. Assustados, mas concordaram.

Tínhamos um mês.

O Oiliam Lanna nos acompanhou ao órgão, executando sozinho, numa redução, toda a parte orquestral. Os solistas eram Kátia Malloy, Angela Cristina Lara, Joubert Oliveira e Mauro Chantal. A Basílica estava cheia naquela noite de 2 de novembro de 1998 — cheia do modo particular que só os dias de Finados produzem, com uma atmosfera entre a celebração e o luto, entre a missa e a memória.

Cantamos.

Há uma história anterior a tudo isso, que vale contar. Anos antes, um jovem regente havia encontrado um disco com a gravação do Requiem. Ouviu. E decidiu, em silêncio, que aquela obra seria a finalização de um percurso — algo a ser cantado no fim, quando houvesse acumulado experiência suficiente para tanto. Era um sonho com prazo indeterminado, guardado com cuidado de quem sabe que certas coisas não podem ser apressadas.

O Pe. Sérgio Palombo não sabia disso. E me fez cantar o Requiem com um mês de preparação.

Ele era assim: culto sem ostentação, celebrava e falava em latim, conhecia os clássicos com a familiaridade de quem não os estudou apenas, mas os habitou. Quando viajava ao exterior, trazia incensos — cada viagem, um novo. Eram parte do ritual, como tudo nele. Com ele, o Madrigale passou a cantar missas solenes mensais na Cura d'Ars, uma tradição que durou anos. E daquele novembro de 1998 nasceu outra: o Requiem de Mozart no dia de Finados, todo ano, sem falta.

Quando o Pe. Sérgio faleceu, em 2004, o Madrigale sentiu como se houvesse perdido um cantor do coro.

Passados quase trinta anos daquele telefonema, já regi o Requiem muitas vezes — com orquestra, com órgão, em espaços e circunstâncias diferentes. E ainda carrego, intacta, a sensação de que há algo nessa obra que pede uma última vez. Não por insegurança — mas porque certas músicas não se esgotam. O Requiem de Mozart é uma delas.







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