domingo, 26 de abril de 2026

Um coro da Indonésia (Dux Stella Voce)

Tenho, cada vez mais, me interessado por ouvir coros que não fazem parte do circuito mais óbvio. Não os grupos já consagrados, ancorados em tradições centenárias, mas aqueles que surgem em outros lugares, com outras urgências, outros modos de construir som. Recentemente, encontrei o Dux Stella Voce, da Indonésia.

Trata-se de um coro relativamente jovem, formado por cantores ligados ao ambiente universitário e ao circuito competitivo asiático, um contexto extremamente organizado, disciplinado e orientado para resultados. Ou seja, não é um coro que nasceu de uma tradição litúrgica contínua ou de uma escola histórica específica. Ele nasceu já dentro de um sistema: o das competições internacionais, dos festivais, da busca por excelência técnica como ponto de partida.

A primeira impressão é contundente: precisão quase implacável. Afinação estável, entradas rigorosamente alinhadas, equilíbrio sonoro cuidadosamente calibrado. O coro funciona como um bloco coeso, onde pouco escapa ao controle.

Mas é justamente aí que a escuta começa a pedir mais. Por que? Porque, quando tudo está sob domínio absoluto, surge uma pergunta inevitável: onde está o risco? Onde está o atrito que faz a música respirar para além da perfeição? Há uma eficiência admirável, mas, por vezes, uma previsibilidade que acompanha essa eficiência. O som se impõe, mas nem sempre se expande. Ele chega pronto, resolvido, quase sem deixar espaço para o inesperado.

Bom, talvez isso não seja um “problema” do coro em si, mas do modelo que o forma. A cena coral indonésia, hoje uma das mais fortes do mundo, construiu um padrão técnico altíssimo, com coros preparados para competir, impressionar, convencer rapidamente. Nesse contexto, o Dux Stella Voce se insere com competência evidente. Mas também herda seus limites.

Ouvir esse tipo de grupo, portanto, é um exercício interessante, não apenas de admiração, mas de reposicionamento. Porque nos obriga a rever algumas certezas: aquilo que chamamos de “expressividade”, “profundidade” ou mesmo “verdade” no canto coral não é dado universal. É construção cultural, histórica, estética. 

E talvez o ponto mais fértil esteja justamente aí. Não em rejeitar esse modelo, o que seria simplista, nem em adotá-lo sem crítica, o que seria ingênuo, mas em escutá-lo com atenção suficiente para perceber tanto sua força quanto suas lacunas. Porque, no fim, ampliar a escuta não é apenas acumular referências, é aceitar que nem tudo o que funciona nos convence, e que nem tudo o que nos convence está, necessariamente, sob controle.


🎬 NOCHE, Lorenzo Donati - DUX STELLA VOCE

  

🎬 HELA ROTAN, Abednego Bogi Christian - DUX STELLA VOCE

 


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