Chegamos à ultima peça do ciclo:
“Crótalo”
Aqui, Lorca faz um gesto curioso: escolhe um dos menores elementos da música, um instrumento simples, quase invisível, e coloca tudo ali: O crótalo.
Pequeno. Seco. Preciso. Algo como uma castanhola. E ele ganha vida...
Logo aparece uma imagem que define bem isso: um “escaravelho sonoro”, pequeno, rígido, vibrante.
Não é uma comparação decorativa. É uma maneira de fazer o som se tornar corpo. De dar ao ritmo uma presença física.
E então vem outro deslocamento importante: a mão. Lorca chama a mão de “aranha”. Os dedos se movem como patas, prendendo o ar, marcando o espaço. O ritmo não é apenas ouvido. Ele é desenhado.
O crótalo, dentro dessa mão, passa a dominar. Ele reina num “Reino de pau”, como diz o poema. Uma expressão simples, mas certeira. Porque ali, naquele pequeno espaço, ele organiza tudo: o tempo, o gesto, a dança.
É curioso. Depois de poemas carregados de dor, memória e destino, Tedesco/Lorca para aqui… e olha para o ritmo em si, sem narrativa, sem personagem, só o pulso.
E até a estrutura do poema acompanha isso: a palavra “Crótalo” se repete, como uma batida, como se o poema quisesse soar mais do que significar. Um poema que não descreve. Percute.
Quando Castelnuovo-Tedesco entra nesse texto, ele encontra um terreno diferente dos anteriores. Aqui, o centro não é a melodia nem a palavra. É o ritmo. A música se torna mais incisiva, mais fragmentada, mais precisa. O coro articula, recorta, quase como se estivesse também percutindo. E o violão entra no jogo.
Dentro do ciclo, Crótalo funciona como um ponto de energia concentrada: breve, brilhante e absolutamente necessário. Lembra algo essencial: antes da dor, da memória ou da imagem… há o pulso.
Uma linda obra, o Romancero Gitano.
🎬 Romancero
Gitano Op.152 - "Crótalo" (Mario Castelnuovo-Tedesco)
VII – Crótalo (Tradução livre)
Crótalo.
Crótalo,
Crótalo.
Escaravelho sonoro.
Na aranha
da mão
riças o ar
cálido,
e te folgas em teu reino
de pau.
Crótalo.
Crótalo.
Crótalo.
Escaravelho sonoro.
Curioso. Não conhecia. Fiquei feliz em conhecer. Será que tem vídeo no YouTube para conhecer o som? Obrigada!
ResponderExcluirSandra Carvalho. Já cantei no Madrigale muitos anos atrás!
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