Em que momento um grupo percebe que já construiu uma história?
A pergunta me ocorreu enquanto trabalhava sobre o ano de 1966 para o novo livro que vou lançar sobre o Madrigal Renascentista. Naquele ano, o coro completava dez anos de existência. Uma década pode parecer pouco para uma instituição, mas os números daquele aniversário ajudam a compreender o que havia acontecido desde que dezoito jovens se reuniram, em 1956, em torno de Isaac Karabtchevsky: eram 819 apresentações realizadas em doze países. O pequeno grupo que havia estreado na Sociedade Mineira de Engenheiros já cantara para papas, presidentes e diplomatas, atravessara continentes e acabara de retornar de uma importante tournée pelos Estados Unidos. Em algum ponto daqueles dez anos, sem que provavelmente fosse possível determinar quando, o Madrigal deixara de ser apenas um projeto promissor de jovens músicos mineiros.
É curioso pensar que esse momento dificilmente é percebido enquanto acontece. Quem está dentro de um grupo continua preocupado com o próximo ensaio, a próxima partitura, a viagem que precisa ser organizada, o dinheiro que não aparece, os cantores que faltam, o concerto da semana seguinte. A história costuma ser muito menos solene para quem a está vivendo. No caso do Madrigal, isso era particularmente evidente. O grupo chegava ao décimo aniversário cercado de enorme prestígio, mas continuava sem sede própria e sem uma subvenção oficial que garantisse sua sobrevivência. Muitas viagens ainda eram custeadas pelos próprios integrantes. Ao mesmo tempo em que a imprensa o apresentava como um dos grandes conjuntos corais brasileiros, seus cantores continuavam ensaiando diariamente, inclusive aos domingos e feriados. A consagração e a precariedade conviviam na mesma sala de ensaio.
Para comemorar os dez anos, o Madrigal resolveu voltar-se para Belo Horizonte. O concerto aconteceu no auditório da então Secretaria de Saúde e Assistência, no edifício onde hoje funciona o Minascentro. A entrada era franca e a intenção declarada era homenagear o público da cidade que havia acompanhado o nascimento do grupo. Gosto especialmente de uma chamada publicada pelo Estado de Minas. Depois de informar que aqueles vinte e seis rapazes e moças ensaiavam sem descanso, o jornal convidava o leitor a levar “os amigos, a noiva ou a namorada”, porque a entrada seria gratuita. Há nessa frase uma informalidade deliciosa. O conjunto que já representava o Brasil no exterior continuava sendo apresentado aos belo-horizontinos como algo que fazia parte da vida da cidade.
O programa daquele aniversário também dizia muito sobre o caminho percorrido. Estavam presentes compositores renascentistas como Janequin, Dowland, Weelkes, Lassus e Le Jeune, repertório que acompanhava a própria identidade do Madrigal, mas também Ravel e, sobretudo, seis novas canções de Francisco Mignone, escritas especialmente para o grupo e apresentadas em primeira audição. Um coro que começara dez anos antes estudando repertório passava agora a provocar a criação de repertório. É uma mudança considerável de posição: compositores importantes já reconheciam naquele conjunto um intérprete para quem valia a pena escrever.
E havia Maria Lúcia Godoy. Sua história estava misturada à do Madrigal desde o início, mas naquele concerto ela se preparava para uma nova temporada nos Estados Unidos e deixaria de integrar regularmente o conjunto. Cantou Trois Beaux Oiseaux du Paradis, de Ravel. Os registros da época contam que o prefeito Oswaldo Pieruccetti, sentado na primeira fila, chorou durante o solo e que a própria Maria Lúcia saiu do palco em lágrimas. O concerto comemorava uma década, mas já carregava uma despedida. Voltarei a ela, porque essa saída merece ser contada separadamente.
O público aplaudiu de pé. Imagino que, naquele momento, os cantores tivessem consciência do tamanho do caminho percorrido. Mas também suspeito que, no ensaio seguinte, tudo tenha voltado rapidamente ao que sempre fora: partituras abertas, notas a aprender, problemas a resolver e outro concerto pela frente. É assim que a história costuma ser construída por quem está dentro dela. Raramente com a sensação de estar fazendo história.
Talvez os aniversários sirvam justamente para interromper por algumas horas esse movimento. Em 1966, aqueles dez anos permitiram ao Madrigal olhar para trás e encontrar 819 apresentações, doze países e uma quantidade extraordinária de pessoas, lugares e músicas acumuladas pelo caminho. Mas permitiram também olhar para a frente. Discutia-se naquele momento a possibilidade de transformar o grupo em uma fundação de arte ou em um conjunto semiprofissional; buscava-se finalmente uma sede; pensava-se em como dar estrutura permanente a algo que havia crescido muito além das condições em que nascera.
É aí que a pergunta inicial fica mais interessante para mim. Um grupo percebe que construiu uma história quando olha para aquilo que realizou? Quando os outros passam a reconhecê-lo? Quando deixa de caber na estrutura que o criou? Não sei se existe uma resposta única. No caso do Madrigal Renascentista, porém, 1966 parece ter sido um desses raros momentos em que passado e futuro ficaram visíveis ao mesmo tempo. Aos dez anos, já havia uma história para celebrar. E começava a surgir um problema muito mais difícil: decidir o que fazer com ela.
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