sábado, 15 de agosto de 2026

Bring us, O Lord God: uma música para o último despertar

Continuando esta série de peças que vou descobrindo e que considero interessantes para um estudo e uma futura apresentação, chego agora a Bring us, O Lord God, de William Harris. A obra me chamou a atenção primeiro pela sonoridade e pela escrita para coro duplo. Fui então procurar um pouco mais sobre ela e encontrei uma história que vale ser conhecida junto com a música.

William Henry Harris nasceu na Inglaterra em 1883 e passou praticamente toda a vida profissional ligado à música coral e ao órgão. Trabalhou em importantes instituições inglesas e, de 1933 a 1961, foi organista e mestre de coro da Capela de São Jorge, no Castelo de Windsor. Estamos falando, portanto, de um compositor que conhecia profundamente o instrumento para o qual escrevia. Harris não imaginava o funcionamento de um coro a distância: convivia diariamente com cantores, ensaiava, preparava repertório e sabia muito bem o que oito linhas vocais diferentes significavam quando deixavam a página e precisavam se transformar em som. Esse aspecto de sua trajetória merece uma reflexão própria e voltarei a ele em outro post.

Bring us, O Lord God foi escrita em 1959, quando Harris tinha 76 anos e já se aproximava do fim de sua longa atividade em Windsor. O texto escolhido é de John Donne, poeta e religioso inglês dos séculos XVI e XVII, e vem de uma oração que fala da chegada do homem à presença de Deus depois do último despertar. Donne imagina um lugar sem escuridão, sem ruído, sem a sucessão de dias e noites que organiza nossa existência. Harris transforma essas palavras em uma música serena, mas que está sempre em movimento. As vozes vão construindo e ampliando a sonoridade até chegar a momentos de grande luminosidade.

A obra foi escrita para coro duplo, sem acompanhamento instrumental. Isso significa que Harris dispõe as vozes em dois grupos completos, que podem cantar separadamente, responder um ao outro ou se reunir. O efeito é muito bonito porque amplia enormemente o espaço sonoro sem que seja necessário acrescentar qualquer instrumento. E aqui também existe outra história que quero desenvolver depois: o coro duplo tem uma tradição muito antiga e oferece ao compositor possibilidades que vão muito além da ideia aparentemente simples de colocar dois coros para cantar juntos.

A ligação de Bring us, O Lord God com Windsor ganhou ainda um capítulo muito posterior à vida do compositor. Em 19 de setembro de 2022, a obra foi cantada na própria Capela de São Jorge durante o serviço que antecedeu o sepultamento da rainha Elizabeth II. Harris havia morrido quase cinquenta anos antes e evidentemente não poderia prever aquele destino para sua música. Mas a escolha reuniu de maneira muito particular o texto de John Donne, a obra de Harris e o lugar onde o compositor havia trabalhado durante quase três décadas.

É uma peça que descobri recentemente e que já entrou na minha lista de repertórios que gostaria de trabalhar. Primeiro veio a sonoridade. Depois, conhecendo melhor a partitura, vieram Harris, John Donne, Windsor e toda essa história que atravessa séculos. É também uma das razões pelas quais gosto de procurar repertório novo: às vezes encontramos uma música; quando começamos a investigá-la, descobrimos todo um mundo ao redor dela.


🎬 VOCES8: Bring Us, O Lord God - William Harris

 


Bring us, O Lord God - John Donne (1572-1631) ​​​​​​​​

Bring us, O Lord God, at our last awakening into the house and gate of heav'n:  
to enter into that gate and dwell in that house, 
where there shall be no darkness nor dazzling, but one equal light; 
no noise nor silence, but one equal music; 
no fears nor hopes, but one equal possession; 
no ends nor beginnings, but one equal eternity; 
in the habitation of thy glory and dominion, world without end.  Amen.  


Conduze-nos, ó Senhor Deus (tradução livre)

Conduze-nos, ó Senhor Deus, em nosso último despertar, à casa e à porta do céu:
para que entremos por essa porta e habitemos nessa casa,
onde não haverá escuridão nem ofuscamento, mas uma única e igual luz;
nem ruído nem silêncio, mas uma única e igual música;
nem temores nem esperanças, mas uma única e igual posse;
nem fins nem começos, mas uma única e igual eternidade;
na morada de tua glória e de teu domínio, pelos séculos dos séculos. Amém.


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