Uma das coisas que mais me chamou a atenção durante minha recente viagem à Argentina foi perceber como os compositores daquele país conseguem colocar suas obras em circulação. Existem iniciativas como o portal de edições do Grupo de Canto Coral e também o Recurso Coral, que disponibilizam partituras para venda ou livre acesso, formando uma rede organizada de divulgação do repertório coral argentino. A ideia não é apenas a de vender partituras, mas de fazer com que a música exista para quem deseja cantá-la.
Voltei pensando no quanto, no Brasil, ainda estamos distantes dessa realidade. Não existe um mercado editorial coral minimamente estruturado. Quando ouvimos uma obra interessante em um concerto, quase sempre perguntamos ao regente se ele poderia nos enviar a partitura. Ela chega por amizade, por indicação ou por contato direto com o compositor, e se esse compositor não faz parte de uma rede de relacionamentos, há uma boa chance de que sua música permaneça praticamente desconhecida.
A circulação das obras depende muito mais das pessoas do que de um sistema capaz de fazê-las chegar aos coros. Essa lógica produz outro efeito curioso: criou-se quase uma expectativa de que tudo seja gratuito. O compositor escreve, revisa, responde mensagens, envia arquivos e, muitas vezes, ainda faz alterações solicitadas pelos grupos, sem que exista qualquer perspectiva de remuneração por esse trabalho. Com isso, também não há estímulo para que surjam editoras especializadas, revisores, diagramadores ou projetos editoriais dedicados exclusivamente à música coral.
Minha relação com esse problema sempre foi muito direta. Passei boa parte da vida copiando partituras. Primeiro porque era necessário. Depois, porque sempre percebi que uma boa edição faz tanta diferença quanto um bom ensaio. Felizmente, as ferramentas atuais permitem produzir materiais muito superiores aos manuscritos com os quais convivíamos há algumas décadas. Ainda assim, continua sendo comum encontrar partituras preparadas sem qualquer preocupação com quem vai lê-las. Fontes desproporcionais, poucos compassos por página, viradas mal planejadas, diagramação confusa e revisão insuficiente transformam a leitura em um exercício de paciência.
Quem costuma resolver essas dificuldades é o regente. Corrige erros, reorganiza páginas, explica inconsistências e traduz para o coro aquilo que a partitura deveria comunicar sozinha. Mas quem realmente convive com esse material durante todo o ensaio é o cantor. Cada interrupção provocada por uma edição mal construída consome tempo que poderia estar sendo dedicado à afinação, à sonoridade, ao texto ou à interpretação. Uma edição ruim afeta diretamente um ensaio.
Penso que existe também um equívoco sobre o próprio mercado. Costuma-se dizer que ninguém compraria partituras. Minha impressão é justamente a oposta. Todo coro procura materiais confiáveis, claros e prontos para serem utilizados. Se o custo for razoável, a compra representa um enorme ganho de tempo para quem ensaia e para quem organiza o trabalho musical. O problema talvez nunca tenha sido a falta de interessados, mas a ausência de uma estrutura que permita ao compositor publicar, divulgar e comercializar seu repertório de maneira simples.
Nos últimos anos tenho procurado organizar e disponibilizar gratuitamente muitas das partituras que preparei ao longo da vida. É uma maneira de compartilhar materiais de qualidade e evitar que outros regentes precisem repetir o mesmo trabalho de edição. Sei, porém, que essa é apenas uma resposta individual. O que realmente faria diferença seria a construção de uma cultura editorial para a música coral brasileira, capaz de aproximar compositores, editores, intérpretes e coros.
Temos excelentes compositores. Temos coros, universidades, festivais, pesquisadores e regentes. Falta fazer com que as partituras circulem com a mesma qualidade da música que elas carregam.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu nome e e-mail para que eu responda. Obrigado.