terça-feira, 11 de agosto de 2026

Antes de cantar, foi preciso copiar O Messias

Quando se pensa em um grande concerto, quase sempre a lembrança vai para os ensaios, para o coro, para a orquestra, para os solistas, para o público chegando e, finalmente, para a música. Pouca gente pensa no material que tornou tudo aquilo possível.

No caso de O Messias, esse trabalho começou muitos meses antes da apresentação com a preparação das partes de coro e instrumentais que... não existiam. Hoje pode parecer estranho, porque estamos acostumados a encontrar quase tudo pela internet, em diferentes edições e formatos. Em 2002, não era assim. Nós tínhamos acesso à partitura da obra, mas isso não significava ter em mãos todo o material necessário para executá-la.

Em Belo Horizonte, ainda se interpretava a versão baseada na orquestração feita por Mozart. Era uma solução bastante usada por coros e orquestras e, de certo modo, estava mais à mão. Mas eu não queria trabalhar essa versão para orquestra clássica, e sim com a formação original de Handel, mais compacta e baseada numa orquestra de cordas. 

Havia saído havia pouco tempo, na Inglaterra, uma edição moderna dessa versão. Consegui a partitura, mas não as partes instrumentais separadas. E aí começou um bom trabalho de cópia. Passei boa parte daquele ano preparando esse material, copiando, revisando, organizando e tentando deixar tudo o mais claro possível para quem fosse tocar.

Isso fazia parte da rotina de muitos regentes naquela época. Quando o material não existia, nós mesmos produzíamos. Era isso ou simplesmente não fazer a obra. Hoje as ferramentas facilitaram enormemente esse processo, mas o problema de fundo ainda não desapareceu. Continuamos com poucas edições disponíveis, pouca circulação de material e pouca tradição editorial voltada para o repertório coral e sinfônico no Brasil. Em muitos casos, o regente ainda precisa assumir funções que deveriam pertencer a um sistema editorial mais organizado.

Quando terminei de preparar as partes de O Messias, uma etapa importante estava vencida. A música ainda precisava ganhar corpo nos ensaios, encontrar seus músicos, seus solistas, seu equilíbrio e sua sonoridade. Mas pelo menos já havia algo essencial sobre as estantes: o material com o qual poderíamos começar a trabalhar.


Parte de violino de O Messias copiada em 2002

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