No post anterior, apresentei Bring us, O Lord God, de William Harris, uma peça que descobri recentemente e que me despertou interesse quase imediato. Ao conhecer um pouco mais sobre o compositor, um dado de sua biografia chamou especialmente minha atenção: Harris passou praticamente toda a vida trabalhando com coros. Não era alguém que ocasionalmente escrevia para vozes. Durante décadas, sua rotina envolveu ensaiar cantores, preparar repertório e ouvir diariamente o resultado concreto daquilo que estava escrito nas partituras.
Isso faz diferença. Quem trabalha com coro durante muito tempo começa a perceber coisas que nem sempre são evidentes quando se olha apenas para a página. Uma nota perfeitamente possível pode estar numa região desconfortável para determinada voz. Uma passagem muito longa pode não oferecer um bom lugar para respirar. Um acorde aparentemente simples pode ser difícil de afinar pela maneira como foi preparado. Em sentido contrário, existem soluções que parecem complexas na partitura e funcionam maravilhosamente quando cantadas porque respeitam a natureza das vozes. São conhecimentos que os livros ensinam até certo ponto. O restante vem de muitas horas diante de um coro.
Ao olhar para Bring us, O Lord God, essa experiência de Harris aparece o tempo todo. A obra é exigente, escrita para oito vozes divididas em dois coros, e não oferece ao cantor o apoio de um instrumento. Mesmo assim, sua escrita tem uma lógica vocal muito clara. As dificuldades existem porque a música pede que existam, e não porque o compositor colocou no papel uma ideia sem imaginar o que aconteceria quando alguém precisasse cantá-la. Isso é uma qualidade que valorizo muito numa partitura.
Minha própria experiência como regente também me fez prestar cada vez mais atenção a essa diferença. Depois de tantos anos ensaiando coros, é relativamente fácil perceber quando uma escrita nasceu de alguém que conhece bem o instrumento coral. Não significa que a música seja necessariamente fácil. Algumas das melhores obras que conheço são dificílimas. A questão é outra: sentimos que o compositor sabe o que está pedindo. A dificuldade possui uma razão musical e, quando o coro consegue resolvê-la, entende por que precisou passar por aquele caminho.
Esse conhecimento também interfere na maneira como escrevemos e fazemos arranjos. Muitas vezes, uma solução que parece ótima diante do computador precisa ser modificada depois que ouvimos pessoas reais cantando. O coro ensina continuamente ao compositor e ao arranjador. Uma respiração inesperada, uma vogal que não funciona naquela altura, uma sequência de acordes que dificulta a afinação, uma passagem que exige um esforço desnecessário: o ensaio devolve informações que a página não oferece. Quem está disposto a escutá-las acaba escrevendo de outra maneira.
Gosto de pensar no coro como um instrumento bastante peculiar. Um piano continua sendo um piano quando o pianista vai embora. Um coro não. Ele é feito de pessoas diferentes, com vozes diferentes, respirações diferentes, dias bons e ruins, facilidades e limitações próprias. Escrever bem para coro começa, portanto, muito antes de distribuir notas entre soprano, contralto, tenor e baixo. Começa por conhecer as pessoas que terão de transformar aquelas notas em música.
E Harris conhecia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu nome e e-mail para que eu responda. Obrigado.