Quando apresentei Bring us, O Lord God, de William Harris, mencionei que a obra havia sido escrita para coro duplo. Para quem está habituado ao repertório coral, a expressão é bastante familiar. Para quem apenas gosta de ouvir música, talvez não seja tão evidente o que isso significa. A explicação mais simples seria dizer que, em vez de escrever para um coro dividido normalmente em soprano, contralto, tenor e baixo, o compositor trabalha com dois grupos completos. Temos, portanto, dois sopranos, dois contraltos, dois tenores e dois baixos. O interessante começa justamente depois dessa explicação.
Dois coros oferecem ao compositor possibilidades que um único grupo não oferece da mesma maneira. Eles podem cantar juntos e produzir uma sonoridade ampla, mas também podem se separar. Um coro pode apresentar uma ideia e o outro responder; uma frase iniciada de um lado pode continuar no outro; os dois grupos podem cantar materiais diferentes ao mesmo tempo ou caminhar separadamente até se encontrarem novamente. Se estiverem dispostos fisicamente em lugares distintos, aparece ainda outro elemento: o próprio espaço passa a fazer parte da música. O som pode vir de direções diferentes e o ouvinte percebe esse diálogo não apenas musicalmente, mas também dentro do ambiente em que está.
Essa ideia está longe de ser uma invenção recente. A música ocidental possui uma longa tradição de explorar grupos vocais separados, e basta lembrar a riqueza das experiências realizadas em Veneza nos séculos XVI e XVII, aproveitando inclusive a arquitetura das igrejas para criar diálogos entre conjuntos. Bach também nos deixou exemplos extraordinários de escrita para dois coros. O princípio atravessou os séculos porque oferece algo muito sedutor: permite multiplicar as possibilidades sonoras sem abandonar aquilo que temos de mais elementar na música coral, que é a voz humana.
William Harris conhecia muito bem essas possibilidades. Uma de suas obras mais conhecidas, Faire is the Heaven, escrita em 1925 sobre um texto de Edmund Spenser, é um exemplo maravilhoso. Ali, os dois coros não estão simplesmente duplicando vozes para produzir um som maior. Harris brinca o tempo todo com aproximações e afastamentos. Em alguns momentos temos a impressão de ouvir grupos distintos; em outros, as oito vozes se reúnem e aquilo que estava separado passa a funcionar como um único grande coro.
🎬 VOCES8: 'Faire is the Heaven' by William Harris - VOCES8, Apollo5, directed by Barnaby Smith
Vale ouvir prestando atenção justamente nisso. Não é necessário acompanhar partitura nem saber identificar qual dos dois coros está cantando. Basta perceber como a textura muda. Em determinados momentos, o som parece se abrir; em outros, concentra-se novamente. As vozes surgem de lugares diferentes da escrita e depois se encontram. A própria alternância entre separação e reunião cria boa parte da beleza da obra.
Para o cantor, a experiência também muda bastante. Cantar em oito vozes exige uma independência que nem sempre é necessária em uma escrita coral mais convencional. Seu naipe pode deixar de ter ao lado exatamente aquilo que costuma ajudá-lo a encontrar uma entrada ou sustentar determinada harmonia. Ao mesmo tempo, é preciso ouvir muito mais. O segundo coro não é um concorrente nem um acompanhamento: ele faz parte de uma conversa da qual cada cantor conhece apenas uma parcela.
É justamente isso que acho lindo no coro duplo. A multiplicação das vozes poderia simplesmente produzir mais som. Nas mãos de um compositor que conhece profundamente o coro, produz outra coisa: mais possibilidades de escuta. Por isso Faire is the Heaven é aqui um ótimo exemplo. Podemos explicar durante vários parágrafos o que significa escrever para dois coros. Harris consegue fazer com que entendamos em poucos minutos, simplesmente ouvindo.
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