domingo, 9 de agosto de 2026

Quando decidimos cantar O Messias (Madrigale - 2002)

Todo coro, em algum momento de sua história, faz uma escolha que muda a maneira como passa a enxergar a si mesmo. Nem sempre essa escolha produz o melhor concerto. Nem sempre é a mais bem executada. Mas ela altera a escala dos desafios que o grupo acredita ser capaz de enfrentar. Com o Madrigale, esse momento chegou em 2002, quando decidimos montar O Messias, de Georg Friedrich Handel.

Hoje, essa decisão pode parecer natural. Afinal, antes dela já havíamos realizado a Missa em Si Menor, de Bach, e os Requiems de Mozart e Brahms. Mas, para um coro ainda relativamente jovem, cada uma dessas obras representava um passo adiante. Não escolhemos O Messias porque fosse um sonho antigo. Escolhemos porque acreditávamos que grandes obras também educam. Elas obrigam um coro a crescer durante o caminho.

Poucas composições ocupam um lugar tão singular na história da música quanto O Messias. Escrito por Handel em apenas algumas semanas, em 1741, o oratório percorre episódios centrais da tradição cristã, da expectativa do nascimento de Cristo à ressurreição, reunindo coros, árias e recitativos de extraordinária força expressiva. Entre seus muitos momentos célebres está o Hallelujah, provavelmente uma das páginas mais conhecidas de toda a música ocidental. Curiosamente, era praticamente a única parte da obra que eu conhecia em profundidade quando decidimos montá-la.

A verdadeira descoberta aconteceu durante a preparação. Passei a conviver diariamente com a partitura, compreendendo sua arquitetura, sua escrita coral e a maneira como Handel constrói um discurso musical que parece crescer sem perder a clareza. Aquela deixou de ser uma obra famosa para se tornar uma obra vivida.

Para a preparação, o Madrigale tinha uma situação privilegiada, um laboratório permanente que, olhando hoje, foi decisivo para que ousássemos aceitar desafios cada vez maiores. Durante anos cantamos regularmente as missas na Paróquia Cura d'Ars, sob a acolhida do Pe. Sérgio Palombo. Aqueles encontros semanais não eram apenas celebrações religiosas. Eram um espaço de aprendizado contínuo. Ali o coro desenvolvia leitura, sonoridade, disciplina, escuta e resistência. Muitas das ferramentas necessárias para enfrentar grandes obras nasceram naquele ambiente muito antes de aparecerem nos palcos.

Sempre acreditei que um coro cresce quando encontra desafios maiores do que aquilo que já domina. Para mim, escolher obras que pareçam maiores do que nós nos obrigam a estudar mais, ouvir melhor, confiar uns nos outros e descobrir capacidades que ainda não sabíamos possuir. E quando decidimos montar O Messias, não imaginávamos tudo o que aquela obra ainda nos faria viver. A música era apenas o começo da história.

Bom, escolher O Messias foi, na verdade, a parte mais fácil. Difícil seria encontrar um caminho para que aquela decisão deixasse de ser apenas um desejo e se transformasse em música. O projeto existia. A vontade também. O dinheiro, não. Foi então que uma cantora do coro resolveu dizer, em voz alta, aquilo que todos talvez estivessem pensando. E foi dessa frase, dita quase como um desafio, que nasceu um dos capítulos mais marcantes da história do Madrigale...




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