quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Os nomes por trás de O Messias

Programas de concerto costumam sobreviver como lembrança do repertório apresentado, da data ou do teatro onde aconteceu a apresentação. Com o passar dos anos, porém, eles acabam adquirindo outro significado. Tornam-se, também, o retrato de um grupo de pessoas que compartilhou um determinado momento da vida

Quando volto ao programa de O Messias, hoje minha atenção já não se detém em Haendel. Ela vai diretamente para os nomes impressos naquelas páginas. Ali estão Kátia, Chris, Gabriela, Daniela, Alice, Lilian, Indaiara, Rosana; Gal, Paula, Henrique, Serginho, Joana, Fernanda, Vanda; Joubert, Gustavo, André, Thiago, Gustavo Maia, Bruno; Marco Paulo, Caíque, Mário, Daniel, Fábio e Ricardo.

Poderia contar uma história sobre praticamente cada um deles. Alguns continuaram cantando por muitos anos. Outros seguiram caminhos completamente diferentes. Alguns continuam fazendo parte da minha vida. Outros nunca mais encontrei. Mas, durante aquele período, todos decidiram dedicar uma parte importante do seu tempo a um projeto que, muitas vezes, parecia maior do que nós mesmos.

É por isso que gosto tanto de guardar e olhar programas antigos (hoje eles estão digitalizados), porque, além de preservar a memória dos concertos, preservam principalmente a memória das pessoas. Quando os abro tantos anos depois, não me lembro apenas das obras que cantamos, mas lembro-me dos ensaios, das conversas antes das apresentações, das dificuldades que enfrentamos juntos e das pequenas vitórias que, naquele momento, pareciam enormes.

Com frequência, a história de um coro acaba sendo contada a partir de seus regentes ou de seus grandes concertos. Isso, talvez seja inevitável. Mas, depois de tantos anos, penso exatamente o contrário. Um coro é construído por pessoas que, em uma terça-feira qualquer, saíram do trabalho ou da universidade para ensaiar, estudaram suas partes em casa, reorganizaram compromissos, abriram mão de muitas coisas e decidiram acreditar que aquele esforço coletivo valia a pena.

Quando olho para esse programa, não vejo apenas o elenco de um concerto. Vejo pessoas que confiaram em propostas que nem sempre eram simples. Acreditaram quando vieram Bach, Mozart, Brahms, Handel e tantas outras obras que pareciam grandes demais para um coro jovem. Acreditaram quando o dinheiro era pouco, quando os obstáculos apareciam e quando o caminho parecia exigir mais coragem do que prudência.

É comum imaginar que esses projetos nasceram apenas porque havia um regente disposto a sonhá-los. Não foi assim. Eles só existiram porque havia um grupo disposto a sonhar junto.

Por isso, este texto não é uma homenagem a O Messias. Também não é apenas uma lembrança daquele concerto. É um agradecimento a cada que ajudou a construir essa minha história.

E, olhando hoje para a minha própria trajetória, percebo uma coisa que talvez eu não tivesse maturidade para compreender naquela época. Se me tornei o regente que sou, foi porque encontrei, ao longo do caminho, pessoas que acreditaram em ideias que, muitas vezes, pareciam até mirabolantes. Nenhuma delas teria saído do papel sem um coro disposto a embarcar comigo.

Regentes costumam receber os aplausos quando o concerto termina. Mas a verdade é que eles são sempre um pouco emprestados. Este aplauso, tantos anos depois, continua sendo de vocês.

Muito obrigado.











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