quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O Requiem que encerrou um ciclo (Acesita - 2000)

Alguns concertos permanecem na memória pela obra executada e outros pelas circunstâncias que os cercaram. O Requiem de Mozart que regi com o Coral Acesita em julho de 2000, reúne essas duas dimensões. Era um momento muito especial para o coro porque o grupo vivia uma fase madura, musicalmente segura, disposto a enfrentar um dos grandes monumentos do repertório sinfônico-coral. A preparação foi intensa, cuidadosa e profundamente gratificante e quando subimos ao palco naquela noite, eu tinha a sensação de que estávamos apresentando um dos melhores trabalhos que havíamos construído juntos.

Naquele momento, porém, eu não imaginava que aquele seria meu último concerto com o Coral Acesita.

Essa despedida não nasceu de um episódio isolado. Ela foi sendo construída aos poucos, por mudanças na maneira como a Fundação Acesita passou a enxergar o próprio coro. O Coral Acesita possuía uma característica rara: era mais antigo do que a própria Fundação. Ao longo de sua história, havia aprendido a criar projetos, propor caminhos e participar ativamente de suas decisões. Sua diretoria era formada por pessoas comprometidas, que entendiam o coro como um organismo vivo e procuravam contribuir para seu crescimento.

Com o passar do tempo, esse protagonismo começou a ser percebido de outra forma. Aquilo que durante muitos anos havia impulsionado o coro passou a ser visto como um obstáculo. Os espaços para novas iniciativas diminuíram, e a relação entre o grupo e a instituição foi perdendo a sintonia que durante tanto tempo sustentara o trabalho.

Ao longo da vida, percebi que essa história não pertence apenas ao Coral Acesita. Instituições culturais frequentemente nascem graças à iniciativa de pessoas que fazem mais do que lhes foi pedido. São elas que criam projetos, mobilizam comunidades e transformam ideias em realizações concretas. Em algum momento, porém, esse mesmo protagonismo pode passar a ser visto como excesso de autonomia. Em vez de fortalecer aquilo que funciona, algumas instituições procuram enquadrá-lo em estruturas mais rígidas. Quase nunca o resultado é positivo.

A proposta de redução salarial que recebi naquele período acabou sendo o episódio que tornou impossível minha permanência. Não foi a origem do problema, mas foi o momento em que ficou evidente que já não havia reconhecimento pelo percurso que havíamos construído juntos. Permanecer deixaria de fazer sentido.

Essa decisão também alcançou outro trabalho que me era muito caro. Naquele momento, deixei não apenas o Coral Acesita, mas também o Coral Infantil Acesita, que eu regia paralelamente. Os dois grupos faziam parte de um mesmo projeto de formação musical e humana. Encerrar o trabalho com um significava, inevitavelmente, encerrar o outro.

Às vezes imaginamos que decisões administrativas afetam apenas contratos ou organogramas. Na prática, elas interrompem processos. Interrompem repertórios em preparação, relações de confiança, projetos educativos e trajetórias que levaram anos para serem construídas. Coros não são apenas conjuntos de pessoas que cantam. São comunidades que amadurecem lentamente. Hoje, quando revejo esse programa do Requiem, continuo enxergando um dos melhores trabalhos que realizamos juntos. Mas também vejo algo que, naquela noite, nenhum de nós sabia. A música que Mozart escreveu para falar sobre o fim acabou marcando, silenciosamente, o encerramento de um ciclo muito importante da minha própria trajetória. 

Não guardo esse concerto como uma lembrança amarga. Guardo-o como o testemunho de tudo o que um grupo pode construir quando encontra pessoas dispostas a acreditar umas nas outras. E isso, felizmente, nenhuma decisão institucional é capaz de apagar.




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