sábado, 3 de janeiro de 2026

Sabiá — escuta em estado de espera x

 

 


Em 2010, no espetáculo HelyElas, Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque, foi apresentada pelo Coro Madrigale de um modo tão simples quanto decisivo.

O nome do espetáculo já dizia tudo: Hely + Elas. Hely Drummond era o eixo da cena. Não havia regente em palco. Eu assistia da plateia. O trabalho estava montado, mas, naquele momento, a música era dele e delas.

Para essa peça, o coro se retira. Permanecem apenas Clara Guzella, Isabela Santos e Márcia Maria Teixeira Reis, interpretando o arranjo de Angelo Fernandes. Um trio feminino, três vozes individuais em diálogo, sustentadas por uma escrita vocal cuidadosa, difícil e afetuosa com a canção.

Sabiá pede espera. É um texto delicado, que não aceita pressa nem excesso. A escolha do trio não foi efeito cênico, mas solução musical justa. Tudo se resolvia na escuta horizontal, sem hierarquia, sem necessidade de controle. Havia confiança — e isso se ouvia.

O público percebeu de imediato: surpresa, atenção maior, um silêncio mais atento ao redor de três excelentes cantoras. A rarefação do grupo deslocou o foco para o essencial.

Ao lembrar dessa apresentação hoje, penso menos no espetáculo e mais nelas. Na decisão de deixá-las ali, sozinhas na cena, sustentando uma canção que só acontece plenamente quando cantada com escuta.

Talvez seja por isso que esse Sabiá ainda mereça registro: quando a música é entregue a quem sabe esperar, ela encontra seu tempo.

 

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