Em 2010, no espetáculo HelyElas, Sabiá, de Tom Jobim
e Chico Buarque, foi apresentada pelo Coro Madrigale de um modo tão simples
quanto decisivo.
O nome do espetáculo já dizia tudo: Hely + Elas. Hely
Drummond era o eixo da cena. Não havia regente em palco. Eu assistia da
plateia. O trabalho estava montado, mas, naquele momento, a música era dele e
delas.
Para essa peça, o coro se retira. Permanecem apenas Clara
Guzella, Isabela Santos e Márcia Maria Teixeira Reis, interpretando o arranjo
de Angelo Fernandes. Um trio feminino, três vozes individuais em diálogo,
sustentadas por uma escrita vocal cuidadosa, difícil e afetuosa com a canção.
Sabiá pede espera. É um texto delicado, que não
aceita pressa nem excesso. A escolha do trio não foi efeito cênico, mas solução
musical justa. Tudo se resolvia na escuta horizontal, sem hierarquia, sem
necessidade de controle. Havia confiança — e isso se ouvia.
O público percebeu de imediato: surpresa, atenção maior, um
silêncio mais atento ao redor de três excelentes cantoras. A rarefação do grupo
deslocou o foco para o essencial.
Ao lembrar dessa apresentação hoje, penso menos no
espetáculo e mais nelas. Na decisão de deixá-las ali, sozinhas na cena,
sustentando uma canção que só acontece plenamente quando cantada com escuta.
Talvez seja por isso que esse Sabiá ainda mereça
registro: quando a música é entregue a quem sabe esperar, ela encontra seu
tempo.
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