segunda-feira, 22 de junho de 2026

Cantar sem competir - um festival, uma memória, uma partitura

No último sábado, dia 20/06, participei, com o Madrigale, do IV Festival Carlos Alberto Pinto Fonseca. Foi uma noite muito especial, não apenas pela qualidade musical dos grupos presentes, mas também pelas reflexões que ela provocou.

Os encontros de corais sempre me despertaram sentimentos ambíguos. Em geral, todos vão para cantar o seu melhor repertório, o que é natural e saudável, mas existe também, ainda que de forma sutil, um desejo de sair com a sensação de ter sido o melhor grupo da noite. Claro que não se trata de uma competição declarada, ainda assim é algo mais discreto, que habita muitos festivais e encontros.

Desta vez, porém, algo diferente aconteceu. Com o auditório da Fundação de Educação Artística completamente lotado e um espaço reduzido para acomodação dos grupos, os coros não puderam permanecer na plateia assistindo às apresentações uns dos outros. O público teve o privilégio de acompanhar quatro excelentes concertos, mas nós, coralistas e regentes, perdemos a oportunidade de fazer aquilo que considero uma das partes mais valiosas desses encontros: ouvir. Uma pena, pois todos os grupos presentes tinham muito a oferecer e o contato com outras sonoridades, outras concepções de repertório, outras formas de construir a interpretação é uma das riquezas do movimento coral. Muitas vezes aprendemos tanto escutando quanto cantando.

Talvez por isso eu tenha ficado particularmente feliz com a postura do Madrigale naquela noite. Não havia entre nós qualquer preocupação em comparação ou disputa. Estávamos ali apenas para cantar bem, comunicar música e emocionar o público e o repertório foi escolhido exatamente com esse propósito. E havia ainda um elemento afetivo importante. 

Qualquer reencontro com a memória de Carlos Alberto Pinto Fonseca me leva inevitavelmente a refletir sobre o cantar coral e sobre a própria vida coral. Sua influência ultrapassa suas composições e arranjos. Ela está presente em uma forma de pensar o coro, de compreender o repertório brasileiro e de enxergar o papel cultural que os grupos vocais podem exercer. Nesse sentido, um dos momentos mais gratificantes do festival foi o retorno de Festa no Interior, de Moraes Moreira, em arranjo de Carlos Alberto Pinto Fonseca. Foi especialmente emocionante revisitar essa obra a partir de uma edição moderna da partitura, permitindo que ela volte a circular entre regentes e coros.

As obras permanecem vivas quando continuam sendo estudadas, ensaiadas e cantadas e essa é, no meu entender, a homenagem mais verdadeira que podemos prestar aos compositores que ajudaram a construir a história do canto coral brasileiro. Por isso, seguindo um trabalho que venho realizando de disponibilização de repertório coral brasileiro, compartilho também esta partitura com todos os interessados. Que ela encontre novos coros, novas vozes e novas histórias.


🎵 Festa do Interior (arranjo de Carlos Alberto Pinto Fonseca)


Apresentação do Madrigale no auditório Sergio Magnani (FEA) - Encontro Carlos Alberto Pinto Fonseca

 






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