Ontem, depois que publiquei a reflexão sobre o que é um coro afinado, recebi uma mensagem de um amigo muito querido, o Lumumba (Celiodivo), cantor de longa experiência e presença importante na minha e na vida musical belo-horizontina. Ela começava assim:
"Arnon, agora você entrou no assunto mais complexo e misterioso da música. Não é à toa que Tom Jobim escreveu Desafinado."
Ele tinha razão e vamos continuar a reflexão:
A afinação parece, à primeira vista, um assunto objetivo. A nota está certa ou errada. O acorde encaixa ou não encaixa. Mas quem vive a música por dentro sabe que a coisa é mais escorregadia. E meu amigo foi direto ao ponto: "Acho que a causa disso é que a afinação serve à expressão musical. Você pode ser afinado e inexpressivo, né? E aí a sua música não toca ninguém, não emociona ninguém."
Essa frase muda tudo. Muda porque podemos encontrar músicos que acertam as notas, respeitam os intervalos, cantam dentro do tom e, mesmo assim, não tocam ninguém. A música fica correta, mas não chega. Fica limpa, mas não respira. E também há o contrário: momentos em que a expressão musical é tão verdadeira que pequenas imperfeições deixam de ocupar o centro da escuta.
Meu amigo foi além, entrando no território da fisiologia: "Individualmente, isso envolve a produção do som, as pregas vocais, achar o lugar certo onde o som perfeito está, tudo isso meio misterioso. E quando falo da fisiologia, também falo da audição e das conexões cerebrais."
E então veio o exemplo mais duro. Ele descreveu um músico que conheceu bem, alguém com voz linda, bom gosto no repertório, presença musical verdadeira. Com o envelhecimento e a perda progressiva da audição, aquela voz foi se transformando num tormento. As pessoas continuavam pedindo para ele cantar, por hábito e por afeto. Meu amigo chegava perto e tentava dissuadi-lo em voz baixa. Mas nunca teve coragem de dizer diretamente que estava desafinando. "Terrível e sem remédio", ele escreveu. "Você pode ter timbre bonito, bom gosto no repertório e tudo o mais. Mas parou de ouvir, acabou."
Isso é profundamente humano. Cantar depende da voz, claro. Mas depende ainda mais da escuta. Uma voz bonita sem ouvido torna-se uma promessa sem direção.
A mensagem seguia para outra situação também conhecida por muitos professores de canto e regentes. Meu amigo lembrava de um cantor que tinha voz boa, gostava de música, tinha cultura, mas no momento do teste vocal, o pianista tocava uma nota e ele emitia outra, nunca a proposta. Uma oitava acima, uma oitava abaixo, em algum lugar difícil de explicar. O professor insistia, mudava estratégias. O mistério permanecia. "Pra mim, isso é um mistério", ele escreveu. E completou, abrindo ainda mais o horizonte da conversa: "Quando você adiciona os semitons, isso complica mais. Imagine adicionar os quartos de tom, comuns na música árabe."
Quando levamos essa discussão para o canto coral, tudo se torna ainda mais delicado. Um coro afinado não é apenas um conjunto de pessoas que acertam notas, é um grupo de pessoas que escutam em comum. Cada cantor precisa perceber a própria emissão, o timbre do naipe, a harmonia que está sendo construída, a direção da frase e a intenção expressiva da música.
Por isso a observação do meu amigo me pareceu tão preciosa. A afinação não existe isolada da expressão musical, mas está a serviço de alguma coisa. E quando perde essa função, vira apenas precisão sem vida.
Talvez a pergunta "o que é um coro afinado?" precise sempre vir acompanhada de outra: afinado para quê? Para acertar notas? Para ajustar acordes? Para emocionar? Para dar sentido à música? A melhor resposta talvez reúna tudo isso. Um coro afinado canta corretamente, mas também escuta profundamente. Sabe que a nota certa é apenas parte do caminho. Sabe que timbre, intenção e expressão também afinam.
Finalizando: antes de cantar, é preciso ouvir, e talvez seja por isso que a afinação continue sendo, como meu amigo bem lembrou, um dos grandes mistérios da música.
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