terça-feira, 2 de junho de 2026

Quando Villa-Lobos reza em contraponto

Escrevendo aqui sobre algumas peças que tenho descoberto em minhas pesquisas, fui provocado por um colega a escrever também sobre o repertório de música coral brasileira, algo que, segundo ele, não se faz com frequência, a não ser nos concertos, quando explicamos as peças. Sendo assim, vou falando também sobre esse repertório que é maravilhoso. Vou iniciar com uma peça do Villa, bastante conhecida, e, aos poucos, vou adentrando no universo mais moderno da música coral do nosso país. 

Sempre que ouço ou rejo o Pater Noster, de Villa-Lobos, lembro-me de Carlos Alberto Pinto Fonseca, não apenas pela peça em si, mas pela maneira como ele a regia e como parecia compreender esse tipo de música: com o corpo inteiro, mas sem exagero; com intensidade, mas sem ruído; com uma profundidade que vinha menos da aparência do gesto e mais da escuta interior. É com essa memória que eu entro nessa obra.

O Pater Noster é uma dessas pequenas obras corais brasileiras que não precisam de grandes dimensões para dizer muito. É uma oração. O texto latino do Pai Nosso aparece numa escrita concentrada, quase recolhida, em que cada frase pede atenção ao som, à palavra e à respiração. Villa-Lobos, tão lembrado por suas obras de grande fôlego e por sua força nacionalista, aqui escolhe outro caminho. O caminho do contraponto, ou seja, da independência das vozes que, na sua combinação, formam um mosaico de resultante interdependente.

Cantar essa peça exige uma medida difícil de encontrar. O coro não pode pesar demais, porque a música perde sua transparência. Também não pode cantar sem presença, porque a oração fica pálida. É preciso sustentar a linha, ouvir os acordes, deixar que o texto conduza a frase. A dificuldade está justamente nisso: cantar com simplicidade sem empobrecer o sentido.

Em 2014, o Madrigale cantou o Pater Noster na Catedral da Boa Viagem, em Belo Horizonte. A acústica da igreja ajudava a peça a encontrar seu espaço natural. A música não precisava ser empurrada, bastava deixá-la respirar.

Gosto dessas obras que parecem pequenas apenas no papel. Quando o coro entra nelas com verdade, elas crescem por dentro. O Pater Noster pertence a esse lugar: uma peça breve, exuberante, mas capaz de abrir um campo de exultação ao redor de quem canta e de quem escuta.


🎬 Pater Noster - Villa Lobos (Madrigale 2014)

 




 


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