quinta-feira, 4 de junho de 2026

Sobre o concerto do Madrigale

Ontem, no dia seguinte ao concerto da Igreja da Boa Viagem, passei um bom tempo ouvindo as gravações que surgiram nos celulares dos cantores. Gosto desse momento. O concerto já passou, a tensão desapareceu, o público voltou para casa e as partituras foram guardadas (nem todas porque um próximo concerto vem aí). E então chega a hora de ouvir o que realmente aconteceu, não o que senti no palco, mas o que ficou registrado. Às vezes a gravação confirma, às vezes revela coisas que passaram despercebidas. 

Desta vez, ela me trouxe uma surpresa, ou melhor, uma lembrança. O Madrigale nunca foi o mesmo coro durante muito tempo. Ao longo de sua história, mudou de repertório, de cantores, de tamanho, de sonoridade, de maneira de ensaiar, de modo de ocupar o palco. Mudou porque o tempo muda as pessoas e, é claro, um coro é feito de pessoas. Na Igreja da Boa Viagem, essa transformação apareceu novamente.

O programa reunia músicas muito diferentes: peças de Palestrina, Scarlatti, Bruckner, Rutter, Ešenvalds, Malotte, além das obras contemporâneas que habitavam a segunda parte do concerto. Em outros momentos da história do grupo, talvez essa combinação produzisse outro tipo de sonoridade, mas o coro que cantou naquela noite foi este coro de agora.

A primeira coisa que me chamou a atenção nas gravações foi a densidade. Durante o concerto, imaginei que parte daquela impressão viesse da acústica da igreja. Ouvindo depois, percebi que não era apenas isso. Havia uma consistência diferente no corpo sonoro do grupo, uma massa vocal mais espessa, mais presente, capaz de sustentar harmonias amplas sem perder clareza. Alguns acordes pareciam ocupar o espaço inteiro da nave e algumas frases tinham peso sem perder movimento. Era um coro cheio de vida.

Talvez por isso eu tenha ficado tanto tempo com aquelas gravações. Elas me lembraram que um grupo artístico não permanece imóvel e o Madrigale continua se transformando, não para melhor ou para pior, apenas continua vivo o suficiente para mudar. Os repertórios passam, os cantores entram e saem, as formações se reorganizam e ainda assim, alguma coisa permanece: uma identidade difícil de explicar e fácil de reconhecer. Na Boa Viagem, ela estava lá, nas linhas serenas de Palestrina, nas harmonias luminosas de Rutter, na atmosfera noturna da Ballade to the Moon, na delicadeza de Only in Sleep.

Mas o que mais me agradou foi outra coisa: a sensação de que o coro ainda tem futuro. Depois de tantos anos, ainda consegue se reinventar sem perder a própria essência. O Madrigale ainda encontra novas cores e poucos grupos conseguem isso.

Terminamos o concerto como sempre fazemos: guardando estantes, teclado, caixa de som, recolhendo partituras, conversando um pouco antes de voltar para casa. Nada de extraordinário. Mas, ouvindo as gravações no dia seguinte, tive a impressão de escutar algo que nem sempre percebemos quando estamos no meio do caminho: o Madrigale continua mudando. E continua cantando com a mesma vontade de seguir adiante.




Igreja da Boa Viagem - 02/06/2016




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