domingo, 7 de junho de 2026

José Maurício: o padre negro que ainda estamos aprendendo a ouvir

Ontem, escrevi sobre a Missa em Si bemol, uma das obras de Padre José Maurício Nunes Garcia que mais me acompanham ao longo da vida. Resolvi dar sequência aqui e falar um pouco sobre esse compositor. José Maurício é um daqueles personagens que todos os estudantes de música brasileira aprendem a admirar desde cedo. Seu nome aparece nos livros, nos cursos de história da música e nas listas dos grandes compositores do período colonial. Durante muito tempo, essa admiração bastou.

As pesquisas mais recentes têm mostrado que existe uma história mais complexa por trás dessa figura tão conhecida. Filho de pais negros livres, nascido no Rio de Janeiro em 1767, José Maurício construiu uma trajetória extraordinária numa sociedade escravista. Tornou-se padre, professor, compositor e mestre de capela, produziu centenas de obras e alcançou reconhecimento num ambiente que impunha obstáculos permanentes à população negra. O fato de sua condição racial ter sido muitas vezes tratada como detalhe secundário diz muito sobre a maneira como a própria história da música brasileira foi escrita. Pesquisadores como P. R. Vaccari têm chamado atenção para o processo de embranquecimento historiográfico que marcou parte da construção da imagem de José Maurício, não para negar sua importância artística, mas para compreender de forma mais completa quem foi o homem por trás da obra.

Também é impossível falar sobre ele sem lembrar o trabalho monumental de Cleofe Person de Mattos. Foi graças a décadas de pesquisa, catalogação e organização documental realizadas por ela que grande parte de sua produção pôde ser conhecida, estudada e interpretada pelas gerações seguintes. Muito do que hoje sabemos sobre sua obra passa diretamente por seu trabalho. Mais recentemente, pesquisadores como Eduardo Monteiro Gonzaga do Monti vêm mostrando como diferentes épocas construíram imagens distintas do compositor, revelando que a memória de José Maurício continua sendo objeto de reflexão e revisão.

Mas, diante da partitura da Missa em Si bemol, confesso que volto sempre à música. Não encontro ali um monumento histórico nem um personagem transformado em estátua. Encontro um músico extraordinário escrevendo para uma necessidade concreta de seu tempo, sempre com elegância, clareza, equilíbrio e uma profunda compreensão da função litúrgica da música. Uma escrita que continua viva mais de duzentos anos depois. As pesquisas ampliam nosso entendimento sobre José Maurício, ajudam a compreender sua trajetória e os desafios que enfrentou. Mas a verdadeira dimensão de sua grandeza continua aparecendo quando abrimos a partitura e colocamos a música para soar novamente.

Durante muito tempo aprendemos a reverenciar José Maurício Nunes Garcia. Talvez tenha chegado a hora de cantá-lo mais. Sempre digo: o melhor lugar para manter viva a memória de um compositor talvez não seja o pedestal, mas a partitura na estante de um coro.




2 comentários:

  1. Foi com Maestro Magani, na década de 50, que cantei essa Missa, em um Concerto denominado BARROCO MINEIRO. SAUDADE.

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  2. Comentário de João Gomes de Oliveira, sobre o CONCERTO BARROVO MINEIRO.

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José Maurício: o padre negro que ainda estamos aprendendo a ouvir

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