terça-feira, 14 de julho de 2026

BDMG: dezoito anos à frente de um coro

Dezoito anos à frente de um coro não cabem em uma lista de concertos. Cabem melhor em algumas imagens: uma sala de ensaio que se repete por anos, vozes que mudam, pessoas que entram e saem, viagens pelo interior de Minas, repertórios que amadurecem, projetos que começam como ideia e, aos poucos, ganham corpo. Quando penso no Coral BDMG, penso sobretudo nisso: duração. Não fui eu quem formou o coro. Ele já existia antes da minha chegada e seguiu existindo depois da minha saída. O que me coube foi conduzir dezoito anos de sua vida.

Quando assumi, encontrei um coro ligado a uma instituição, bastante estável, com vocação artística, mas ainda situado dentro de uma prática amadora. Havia ali uma história, um pertencimento, um desejo de cantar bem e também uma imagem que o próprio grupo fazia de si. Como acontece muitas vezes com coros, essa imagem nem sempre coincidia exatamente com aquilo que o coro era naquele momento. Não digo isso como desmerecimento. Pelo contrário. Todo grupo que se move precisa carregar alguma distância entre o que é e o que deseja ser. O trabalho do regente talvez comece justamente aí: entre a realidade sonora que encontra e a possibilidade musical que consegue imaginar.

O projeto não nasceu pronto. Foi se formando no tempo, entre negociações, limites institucionais, escolhas de repertório, possibilidades de agenda e mudanças de direção. Nem sempre a instituição via o coro do mesmo modo que eu. Isso também fez parte do percurso. Um coro institucional tem uma funcionalidade própria. Ele representa uma casa, participa de eventos, responde a demandas, ocupa lugares simbólicos. Ao mesmo tempo, se for tratado apenas como instrumento institucional, empobrece. O desafio era fazer com que o Coral BDMG cumprisse sua função sem perder densidade artística. Que fosse útil, sim, mas não apenas utilitário.

A maior transformação que acompanhei foi sonora e artística. Aos poucos, o coro foi compreendendo melhor o próprio corpo, suas possibilidades, seus limites, sua maneira de estar no repertório. Não se tratava de transformar o grupo em outra coisa, mas de aprofundar aquilo que ele podia ser. Alguns projetos ajudaram muito nesse caminho, especialmente aqueles que ligavam o coro à história e à geografia de Minas Gerais. Entre todos, o projeto da Estrada Real permanece, para mim, como a grande marca do meu período à frente do BDMG. Ali havia uma ideia forte: o coro viajando, ocupando cidades, cantando em espaços carregados de memória, criando uma relação entre música, território e patrimônio.

Essas viagens me ficaram muito vivas. Minas tem uma maneira própria de devolver som aos coros. Igrejas, teatros, praças, cidades históricas, estradas, chegadas à noite, montagens rápidas, ensaios possíveis, apresentações que aconteciam entre o planejamento e o imprevisto. O Coral BDMG me ensinou muito nesse contato com o estado. Não era apenas levar música a determinados lugares. Era entender que o coro, quando viaja, também aprende. Aprende com a acústica, com a recepção das pessoas, com o cansaço, com a estrada, com a necessidade de se reorganizar fora da rotina. Um grupo se conhece muito quando sai de sua sala habitual.

Talvez o maior aprendizado desses dezoito anos tenha sido este: não se pode desistir da ideia de formação de um grupo. Mesmo quando o avanço parece lento, mesmo quando a instituição muda de prioridade, mesmo quando os cantores oscilam, mesmo quando o repertório precisa ser ajustado, a formação continua sendo o centro. Formar um coro não é apenas melhorar afinação, leitura ou sonoridade. É formar escuta, responsabilidade, presença, memória de trabalho. É fazer com que o grupo compreenda, pouco a pouco, que cantar junto exige mais do que boa vontade.

Penso que, mais para o fim do meu tempo ali, o Coral BDMG chegou a uma identidade mais clara. Não uma identidade definitiva, porque nenhum coro vivo deveria ser definitivo, mas uma organização interna, uma consciência de trabalho, uma maneira de se apresentar e de responder musicalmente. Quando saí, tive a sensação de ciclo completo. Não senti que havia abandonado algo inacabado. Senti que tinha chegado a um ponto em que talvez eu já não tivesse mais o que ensinar ao coro da mesma forma. A transição para outro regente foi tranquila e, creio, salutar para o grupo.

Isso é importante. Um coro que depende eternamente de um regente talvez não tenha sido bem conduzido. O trabalho precisa deixar alguma organização que sobreviva à presença de quem o realizou. O Coral BDMG se transformou depois de mim, como deveria acontecer, mas reconheço ainda nele algo daquele tempo: uma estrutura, uma memória de disciplina, uma consciência de grupo que não desaparece de um dia para o outro. Isso me alegra. Não por vaidade, mas porque mostra que parte do trabalho se incorporou.

O que ficou em mim é uma boa lembrança de muitas viagens e apresentações por Minas. Ficou também a experiência de ter acompanhado um coro por tempo suficiente para vê-lo mudar de verdade. Dezoito anos não são apenas uma duração administrativa. São uma vida compartilhada, com fases, tensões, conquistas, cansaços e amadurecimentos. Talvez seja isso que um regente leva quando deixa um coro depois de tanto tempo: não a ilusão de ter sido indispensável, mas a consciência de ter participado de uma parte importante de sua história.

Com o tempo, seguimos caminhos diferentes. Isso também faz parte da vida dos coros. Um grupo muda, uma instituição muda, um regente muda, e chega uma hora em que a continuidade talvez precise de outra presença, outro ouvido, outro modo de conduzir. Mas o Coral BDMG permanece em mim de maneira intensa. Permanece nas viagens por Minas, nas igrejas, nos teatros, nas estradas, nas apresentações que deram certo, nas que exigiram mais do que imaginávamos, nos rostos de tantos cantores, na sensação de ter participado de uma parte importante da história daquele coro. Dezoito anos não desaparecem quando um ciclo termina. Eles continuam trabalhando por dentro da memória.


















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