Nem só de Mozart, Bach e música renascentista vivia o Madrigal Renascentista. Foi o que descobri ao chegar a uma pequena crônica publicada no Diário de Minas, em 23 de novembro de 1967. O título já prometia alguma coisa: “Êta Belô”.
O cronista comentava aquilo que considerava uma das novas extravagâncias de Belo Horizonte. O goleiro Raul Plassmann (quem não se lembra dele?), então jogador do Cruzeiro, havia decidido cantar e gravara uma música chamada I Love You, You Love Me.
Até aí, poderíamos simplesmente colocar o episódio na grande coleção de jogadores de futebol que, em algum momento, resolveram experimentar a carreira musical. O problema, ou a graça da história, é que Raul não estava sozinho. Quem o acompanhava era o Madrigal Renascentista.
O jornalista não recebeu muito bem a novidade. Diante daquela combinação entre um dos grandes coros brasileiros e um goleiro transformado em cantor, escreveu que não sabia se “tacava o bambu no goleiro, no Madrigal ou na firma responsável pela gravação”.
É difícil não rir. A música, porém, não era uma simples brincadeira feita para o jogador. I Love You, You Love Me é de Durval Ferreira, compositor importante daquele ambiente musical ligado à bossa nova e ao samba-jazz, e aparece posteriormente em outras gravações. Portanto, provavelmente havia ali uma produção musical mais séria do que a crônica bem-humorada queria fazer parecer.
Ainda não consegui encontrar a gravação de Raul com o Madrigal. E confesso que gostaria muito de ouvi-la. Principalmente porque o episódio desmonta um pouco a imagem muito organizada que podemos construir de um grupo quando olhamos sua história décadas depois. Em 1967, o Madrigal cantava Mozart na Sala Cecília Meireles, participava de festivais dedicados a Webern, apresentava música brasileira contemporânea, viajava pelo país e, em algum momento, entrou num estúdio para acompanhar o goleiro do Cruzeiro.
Isso também é história. E talvez seja justamente uma das partes mais divertidas dela. Um conjunto que hoje podemos colocar facilmente numa categoria chamada “música erudita” estava circulando por uma cidade na qual futebol, rádio, discos, música popular e concertos se encontravam com muito menos cerimônia do que nossas classificações posteriores fazem supor.
A música é esta: 04 - I Love You, You Love Me. Mas ainda não encontrei a versão do Raul com o Madrigal. Alguém tem?
Não sei se o cronista acabou tacando o bambu em alguém. Eu, por enquanto, continuo procurando o disco. E quero muito ouvir Raul cantando com o Madrigal.
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