terça-feira, 31 de março de 2026

Romancero Gitano V. Memento

 


Memento

O poema é mínimo. Quase nada. Tudo se organiza em torno de uma frase que se repete três vezes:

Quando eu morrer.

Como se fosse um refrão. Ou melhor, como se fosse um pensamento que insiste até se tornar inevitável.

Mas o que chama atenção aqui não é a morte. É a forma como ela aparece: sem drama, sem desespero, sem resistência. Quase com clareza.

O primeiro pedido já define tudo:

com minha guitarra
enterrai-me…

A guitarra volta, não como objeto, mas como identidade.

Em Lorca, isso é constante: a música não está ao lado da vida. Ela é a própria vida. Então, levar a guitarra para a morte é não romper esse fio. É continuar sendo. E os lugares escolhidos para esse enterro não são neutros: a areia e o cata-vento.

A areia traz o silêncio, o calor, a paisagem árida do sul. Um retorno à terra sem ornamento. O cata-vento, ao contrário, introduz movimento. Gira. Responde ao vento. Continua. Uma imagem simples, mas precisa: algo do sujeito permanece, não como presença fixa, mas como movimento no mundo, como memória ou como som.

Memento não fala da morte como fim. Fala da continuidade daquilo que importa. Sem grandiloquência. Sem explicação... 

Na minha opinião, Castelnuovo-Tedesco encontra um ponto de equilíbrio raro dentro do ciclo. A música se recolhe, respira mais, deixa espaço. E o violão, dessa vez, não apenas participa, mas carrega o sentido porque a guitarra que o poema pede para levar à terra continua ali, soando.

Dentro do ciclo, Memento é pausa. Não uma pausa vazia... uma pausa que escuta.


🎬 Romancero Gitano Op.152 - "Memento" (Mario Castelnuovo-Tedesco)


V- Memento (Tradução livre)

Quando eu morrer,

com minha guitarra

enterrai-me sob a areia.

Quando eu morrer,

enterrai-me se quiserdes

num cata-vento.

Quando eu morrer!


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