Volto a 15 de abril de 2000 por causa de um programa antigo. Na capa, o título Sábado Clássico. O concerto aconteceu no Teatro da Fundação Acesita e juntou os dois coros que, naquela época, estavam muito presentes na minha vida: o Coral Acesita e o Madrigale. Um vinha do trabalho institucional em Timóteo. O outro, da construção que eu fazia em Belo Horizonte. Hoje, olhando para esse papel, vejo mais do que uma apresentação. Vejo duas frentes minhas se encontrando no mesmo palco.
A primeira parte do concerto foi dedicada a As Sete Palavras de Christus Crucifixatum, de Hostílio Soares. Isso, para mim, já dava peso ao programa porque Hostílio não era um compositor qualquer dentro da minha formação. Na segunda parte, o programa mudava de lugar. Vinham Liberdade, de Ronaldo Miranda; Ofulú Lorerê, de Osvaldo Lacerda; Cantares, também de Ronaldo Miranda; Chula no terreiro, de Frederico Dantas; Fuga Proverbial, de Osvaldo Lacerda; e Cateretê, de Francisco Mignone. Visto hoje, esse repertório diz muito do que eu buscava naquele período. Eu queria colocar os coros diante da música brasileira como centro do concerto, não como complemento simpático. Havia ali humor, dança, contraponto, ritmo, invenção, texto, traço popular trabalhado com escrita exigente. Era um Brasil coral que me interessava justamente porque não cabia em uma fórmula só.
Para além, juntar o Coral Acesita e o Madrigale Nansen não era apenas aumentar o número de cantores. Eram histórias diferentes, rotinas diferentes, cidades diferentes, modos diferentes de viver a prática coral. Um coro institucional do Vale do Aço e um coro independente de Belo Horizonte cantando compositores brasileiros. Havia ali alguma coisa do que eu tentava fazer naquele tempo: formar grupos, criar repertórios, circular entre espaços, aproximar pessoas, fazer com que coros diferentes aceitassem uma mesma proposta musical.
Esse programa me devolve uma fase de muito trabalho. Estrada, ensaio, partitura, telefonema, programa impresso, solista, pianista, instituição, cantor acreditando no projeto. Talvez nem tudo tenha saído como imaginávamos, mas havia uma energia forte de construção. O Coral Acesita e o Madrigale, juntos naquele sábado, mostram isso com clareza: dois grupos diferentes, reunidos por uma vontade comum de fazer música coral com seriedade e algum risco.
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