Em 1965, durante a excursão aos Estados Unidos, o Madrigal Renascentista nem sempre foi apresentado pelo seu próprio nome. Nas laterais do ônibus que transportava o grupo, lia-se em grandes letras: “Coro do Brasil”. Os cantores viajavam com pequenas bandeiras brasileiras e contavam com apoio de consulados e da Varig. A mudança de nome parecia simples, mas, por algumas semanas, um coro criado em Belo Horizonte passava a representar simbolicamente um país inteiro.
Essa representação tinha um sentido político claro. A viagem aconteceu poucos meses depois do golpe civil-militar de 1964, quando o novo governo brasileiro buscava fortalecer sua aproximação com os Estados Unidos. O Madrigal oferecia uma imagem conveniente: jovens disciplinados, repertório bem preparado, domínio de diferentes idiomas e uma sonoridade capaz de circular com segurança pelos auditórios norte-americanos. A diplomacia cultural funcionava assim: sem discursos oficiais, a música ajudava a projetar um Brasil culto, moderno e estável.
Mas a excursão não se explicava apenas pela diplomacia. O que tornou possível percorrer 47 cidades em cerca de cinquenta dias foi uma estrutura profissional de circulação artística: os Community Concerts. Esse sistema, ligado ao Organized-Audience Plan, funcionava por associações locais que reuniam assinantes antes da temporada. Com o dinheiro já garantido, contratavam artistas e levavam concertos a cidades pequenas e médias, muito além dos grandes centros.
O Madrigal entrou nesse circuito por meio da Columbia Artists Management Inc., a CAMI, uma das grandes agências artísticas internacionais daquele período. Isso mostra que o coro não viajava apenas como gesto simbólico do Brasil no exterior. Era também uma atração inserida num mercado musical organizado e exigente. Havia contrato, roteiro, horários, auditórios e compromissos sucessivos.
Para o público norte-americano, o Coro do Brasil reunia algo atraente: repertório europeu, música brasileira, spirituals, juventude, disciplina e a presença marcante de Maria Lúcia Godoy. Era estrangeiro, mas apresentado dentro de uma forma que o circuito sabia receber. Trazia novidade sem romper com os códigos da música de concerto.
O preço dessa engrenagem era alto. Em poucos dias, o grupo atravessava estados, enfrentava neve, frio intenso, ônibus, malas, ensaios e concertos quase sem descanso. A mesma estrutura que abriu tantos palcos também exigiu dos cantores um esforço enorme.
Ainda assim, participar dos Community Concerts foi uma conquista extraordinária. Com menos de dez anos de existência, o Madrigal entrava num circuito consolidado de circulação internacional. Em cada cidade, o público não ouvia apenas um coro mineiro. Ouvia aquilo que lhe fora anunciado: um (o) Coro do Brasil.
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