Era 21 de junho de 2002. O Madrigale cantava o Requiem Alemão, de Brahms, no Auditório Sergio Magnani, na Fundação de Educação Artística. Rosana Marreco e Caíque Cerri eram os solistas, Rodrigo Miranda estava ao piano. Fizemos a versão para coro e piano solo, escrita pelo próprio Brahms e só isso já dizia muita coisa. Não era uma peça pequena, nem uma obra para ser resolvida na base do entusiasmo. Exigia estudo, resistência, alemão, concentração e uma compreensão do clima geral da música. Brahms não permite muita distração e se o coro relaxa, a obra cobra imediatamente.
Naquele momento, o Madrigale e eu estávamos procurando repertórios mais ousados, porque era uma fase em que o coro parecia precisar de desafios para continuar crescendo. Isso sempre foi muito forte no grupo: o Madrigale se alimenta dessas metas um pouco maiores do que a zona de conforto. Ali, a obra assustava, claro, mas, quando o coro resolvia fazer alguma coisa, raramente recuava diante do trabalho.
Sempre considerei que o auditório da Fundação tem uma das melhores acústicas de Belo Horizonte para coro de câmara, talvez a melhor, e, naquela noite, isso ficou evidente. A sala acolheu o som sem borrar as linhas e sem deixar o coro exposto demais. Há lugares que atrapalham e outros que apenas recebem, e há lugares que parecem entrar na apresentação. Naquele dia, esse foi o caso da Fundação.
Rosana e Caíque eram jovens e trabalharam muito para aquela apresentação. Os dois estavam dentro da obra, não apenas cumprindo suas partes, e a noite foi feliz com e para ambos. Cantaram com segurança, com firmeza, sem parecerem intimidados pelo tamanho da peça. Em uma obra como essa, o solista não pode surgir como alguém destacado do grupo, fazendo outra música. Precisa respirar no mesmo ambiente do coro. Naquela noite, isso aconteceu.
O que mais me ficou, porém, foi a concentração do Madrigale. Cantar Brahms não é só acertar nota, entrada e texto. É sustentar uma travessia. O coro precisa permanecer inteiro por muito tempo, sem perder escuta, intenção, afinação, respiração. Qualquer queda de atenção aparece. Nas minhas anotações, escrevi que a concentração do grupo foi máxima e acho que foi isso mesmo. O coro entendeu o tamanho da responsabilidade de cantar aquela obra.
A casa estava cheia, fomos muito aplaudidos, havia muita gente do meio musical. Mas a palavra que escrevi depois foi outra: “respeito”. Na hora, coloquei até uma pergunta: “Respeito? Acho que sim.” Hoje, penso que não era só o respeito dos outros pelo coro, embora isso importasse. Era também o respeito do coro por si mesmo. A apresentação mostrou que aquele repertório estava ao nosso alcance, desde que houvesse trabalho, estudo e coragem para atravessar a dificuldade.
Talvez essa seja uma das coisas mais importantes que um grande repertório faz por um coro. Ele muda a imagem que o grupo tem de si. Depois de cantar Brahms daquela maneira, o Madrigale não podia se olhar exatamente como antes. Tinha passado por uma obra difícil, sustentado a noite, respondido ao desafio. Minha anotação terminou daquele jeito porque talvez eu ainda estivesse tentando entender o que havia acontecido. “Respeito? Acho que sim.” Acho que sim.
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