quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Maria Lúcia Godoy, Ravel e uma despedida

No concerto que comemorou os dez anos do Madrigal Renascentista, em 1966, Maria Lúcia Godoy cantou o solo de Trois Beaux Oiseaux du Paradis, de Maurice Ravel. Os registros daquele dia contam que o prefeito de Belo Horizonte, Oswaldo Pieruccetti, sentado na primeira fila, chorou durante sua interpretação. Maria Lúcia também se emocionou e deixou o palco em lágrimas. A cena poderia ser apenas uma daquelas lembranças bonitas que sobrevivem de um concerto antigo, mas havia uma razão para que aquele momento tivesse um significado particular: ela se preparava para uma nova temporada nos Estados Unidos e aquela apresentação marcava sua despedida como integrante regular do Madrigal.

Maria Lúcia estava ligada ao grupo praticamente desde o começo. Havia participado dos primeiros anos daquela aventura conduzida por Isaac Karabtchevsky e, quando o Madrigal completava uma década, sua própria carreira já apontava para outros caminhos. A cantora que dividia os ensaios e as viagens com os demais integrantes começava a ocupar espaços cada vez maiores como solista. Isso não significava um rompimento com o coro. Ela ainda voltaria a cantar com o Madrigal em outras ocasiões, mas aquela convivência regular, feita de ensaios, repertórios e projetos compartilhados, estava chegando ao fim.

Gosto dessa história porque ela mostra uma dimensão dos grupos musicais sobre a qual nem sempre pensamos. Quando um coro trabalha bem, é natural desejar que seus melhores cantores permaneçam. Eles ajudam a construir a sonoridade, tornam-se referências para os colegas e, com o tempo, parecem fazer parte da própria identidade do conjunto. Mas um grupo também pode cumprir sua função justamente quando alguém cresce a ponto de precisar seguir outro caminho. Maria Lúcia não estava deixando o Madrigal porque aquela experiência tivesse perdido importância. Ao contrário: levava consigo uma parte do que havia construído ali enquanto avançava numa carreira que já começava a adquirir outra dimensão.

Para quem permanece, essas partidas nunca são simples. Um coro é uma estrutura musical, mas é também uma convivência. Ensaiar durante anos com as mesmas pessoas cria relações que ultrapassam o repertório. Quando alguém sai, não se substitui simplesmente uma voz. Outra pessoa pode ocupar aquele lugar musical, cantar a mesma parte e até fazê-lo muito bem, mas o grupo já não será exatamente o mesmo. Talvez por isso a imagem de Maria Lúcia deixando o palco emocionada diga tanto sobre aquele concerto. O Madrigal celebrava dez anos e, justamente no momento em que olhava para tudo o que havia conquistado, precisava também aceitar que sua história continuaria sendo feita de chegadas e partidas.

Existe ainda algo bonito no repertório escolhido para aquele momento. Trois Beaux Oiseaux du Paradis integra as Trois Chansons, de Ravel, e oferece à voz solista um diálogo muito particular com o coro. Maria Lúcia não estava diante do Madrigal cantando uma ária enquanto o grupo simplesmente a acompanhava. Sua voz surgia de dentro daquela construção coral e conversava com ela. Para uma cantora que se despedia da condição de integrante regular justamente quando sua trajetória como solista ganhava novos horizontes, a coincidência parece especialmente feliz.

Depois, a história seguiu. Maria Lúcia Godoy construiria uma das carreiras mais importantes do canto brasileiro, e o Madrigal Renascentista continuaria seu próprio caminho. Os dois ainda voltariam a se encontrar. Mas gosto de olhar para aquela noite de 1966 sem conhecer antecipadamente tudo o que viria depois. Ali havia uma cantora partindo, um coro aprendendo a continuar e uma obra de Ravel servindo de despedida.

Grupos que permanecem durante muitos anos aprendem cedo ou tarde essa lição. Sua história não é construída apenas por quem fica. Também é construída por aqueles que, em determinado momento, precisaram partir. E algumas vozes, mesmo depois de partirem, continuam pertencendo à história do coro.

🎵 Maria Lúcia Godoy - Trois beaux Oyseaux du Paradis



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