quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O nome que ficou em um programa

Encontrei este programa de concerto entre meus documentos antigos e fiquei algum tempo olhando para ele. “Devocionário Popular aos Santos”, Grupo Árcade da UFMG e músicos convidados. Logo abaixo: “regência Arnon Sávio Reis de Oliveira”. Meu nome está ali porque fui eu quem regeu aquele concerto. Mas a história não começou comigo...

O projeto fazia parte de uma iniciativa muito importante de restauração e difusão de partituras ligadas ao acervo musical da Arquidiocese de Mariana. A cada ano, coros do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Minas Gerais participavam da gravação de obras que estavam sendo recuperadas e disponibilizadas novamente para músicos e pesquisadores. Naquela etapa, o responsável pela preparação do coro mineiro era meu amigo Rafael Grimaldi. Foi ele quem reuniu os cantores de Belo Horizonte e iniciou o trabalho que levaria à gravação daquele repertório.

Rafael, no entanto, atravessava um período pessoal muito difícil e, durante as gravações, ficou claro que não conseguiria conduzir o trabalho até o fim. Fui chamado às pressas para ajudar. Não foi a primeira nem seria a última vez que apareci em algum projeto quando as coisas já estavam pegando fogo. Curiosamente, essa parece ter sido uma das especialidades involuntárias da minha vida profissional.

Entrei e fiz o que era possível fazer. A situação, naturalmente, não era confortável. Aquele era um grupo formado por Rafael, com pessoas que haviam começado o trabalho com ele, e minha chegada repentina foi recebida com alguma desconfiança. Alguns cantores aparentemente entenderam minha presença como uma interferência que poderia ter outras intenções. Não tinha. Havia uma gravação acontecendo, um compromisso assumido e a necessidade imediata de fazer aquilo funcionar.

A gravação terminou. Depois dela, porém, estava previsto um concerto em Mariana para o lançamento do disco. Rafael ainda não tinha condições de assumir a regência e novamente fui chamado. Aceitei e é por isso que meu nome aparece neste programa.

Durante muito tempo, essa história me pareceu relativamente simples. Havia um problema concreto, alguém precisava assumir o trabalho e eu assumi. O projeto pôde ser concluído e, de alguma maneira, também preservei Rafael de uma situação que poderia ser ainda mais difícil naquele momento. Não houve para mim qualquer prejuízo profissional; ao contrário, participei de um projeto importante e regi um repertório que merecia ser ouvido.

Hoje, porém, olhando para este programa, a história já não me parece tão simples. Não porque eu ache que tenha agido de má-fé. Sei que não agi. Também não consigo afirmar que deveria ter recusado o convite, porque isso provavelmente criaria outros problemas e não resolveria a situação de Rafael. O desconforto está em outro lugar. Aquele trabalho tinha uma história anterior à minha chegada. Houve alguém que escolheu e reuniu aqueles cantores, começou os ensaios e construiu uma parte do caminho. O programa registra quem terminou o percurso, mas não consegue registrar tudo aquilo que aconteceu antes.

A vida profissional é cheia dessas substituições. Um músico adoece, um regente não pode comparecer, alguma coisa sai do controle e outra pessoa precisa entrar. Quem trabalha há muito tempo com música sabe que não há nisso necessariamente usurpação ou injustiça. O concerto tem data marcada e, para nossa desgraça, não costuma se sensibilizar com os dramas humanos que acontecem antes das oito da noite.

Mesmo assim, tantos anos depois, descobri que gostaria de dizer uma coisa a Rafael. Não uma confissão de culpa que talvez nem faça sentido, nem uma tentativa de reescrever aquilo que aconteceu. Gostaria simplesmente de pedir desculpas por meu nome ter terminado naquele lugar que havia sido preparado para o dele.

Eu regi aquele concerto, mas ele era fruto do bom trabalho do meu amigo Rafael Grimaldi.







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O nome que ficou em um programa

Encontrei este programa de concerto entre meus documentos antigos e fiquei algum tempo olhando para ele. “Devocionário Popular aos Santos”, ...