domingo, 30 de agosto de 2026

Um velho, distante Madrigal — por Affonso Romano de Sant’Anna

No post anterior, falei de uma crônica escrita por Affonso Romano de Sant’Anna em 1966, depois de ouvir, em Los Angeles, a Sinfonia do Novo Mundo, de Dvořák. Alguns leitores me pediram para conhecer o texto ao qual eu me referia, e acho que vale a pena trazê-lo aqui na íntegra.

É um documento precioso porque Affonso escreve ainda muito próximo dos anos em que cantou no Madrigal Renascentista. A música de Dvořák faz surgir nomes, viagens, ensaios, histórias e lembranças em sequência, quase como se o próprio concerto abrisse uma porta para aquele tempo.

Preservo abaixo o texto como foi publicado, inclusive sua grafia original e eventuais lapsos de impressão.

IMPRESSÕES AMERICANAS – UM VELHO, DISTANTE MADRIGAL – Affonso Romano Sant’Anna (Los Angeles)

1 – Quando a orquestra de jovens, recém-organizada, começou a tocar no palco do Wilshire-Ebell Teatre a Sinfonia “Novo Mundo”, de Dvorak comecei a me lembrar irremediavelmente do IK e do meu MR.

2 – O movimento era um “adagio, allegro molto” e as lembranças pularam cá dentro alegremente, mas num ritmo constante de saudade. Lembre-me de ter recebido daí jornais dizendo que o meu coro completou seus dez anos de vida, está ainda sem sede e as entrevistas se sucedem para resolver o problema. A solução que encontram de arranjar magnatas para financiar sede e funcionamento, é das melhores e é isto que aqui se faz e se faria em tal situação.

3 – Madrigal, como um “adágio, allegro molto”, me lembra sempre riso e alegria, e me vêm à mente rostos, expressões, situações, viagens, palcos, luzes, aplausos, expectativas e aquela vontade e dedicação raríssimas em nossa cultura de manter uma entidade amadora por 10 anos, contra tudo e contra todos.

4 – Faz-se um silêncio e o maestro, gordo, já meio calvo (Kenneth Klein), tão diferente do Isaac e sua leveza, Isaac e sua verstilidade, lirismo puro e movimentando-se em ritmos e acordes, e começa o “largo”. Cenas compassadas se sucedem, tênues e humaníssimas e sempre crescendo para um final trágico: a morte de Beti. Nós ali no Municipal ensaiando à tardinha e o telefone chama a Pitucha, de BH. Um telefone. Dois telefonemas. Estava morto o companheiro do Madrigal e serenatas. Morto Beti, meu amigo imponderável... E eu ali no palco vestindo a túnica vermelha que era dele para cantar uma missa. Todos souberam do fato. Menos MLG, que tinha belíssimos solos a fazer. Ela não sabia então que cantava Kyrie Eleisons e Benedictus para seu irmão. Algumas lágrimas corriam na face de alguns cantores.

5 – Madrigal, Madrigal, 3 anos de minha vida, ensaios diários, inclusive aos domingos e feriados. O maestro agora passa ao “Scherzo, molto vivace”. Madrigal da inauguração de Brasília, que foi saudar vários presidentes e através de quem escutei a conversa secreta do jantar de somente 6 pessoas quando lá no Alvorada esteve Eisenhower e todo mundo era feliz. Madrigal de um “rush”alucinado pela Argentina (aquela viagem feita sem dinheiro, completo pulo no vazio e que se transformou numa apoteose em poucos dias).

6 – E com o “allegro con fuoco”o maestro detona em mim um verdadeiro “strem of consciousness”. João Meira engraçadíssimo com ou sem saxofone, João Mateus toque de humano caipirismo nas metrópoles do mundo, Cláudio dizendo nomes e assustando as moças, Evandro tipo romântico e promessa no piano, Valdemira a zelosa e a frase abrupta saidno quando contrariada, Neide temperamenteo, musicalidade e inteligência, Melinha terna e cada vez mais rara hoje em dia, Teresinha alegre sempre e sempre ativa, zinha dizendo: “eu tenho experiência”. Simão, um dos raros amigos épicos que tenho, Edival conversando com todos os presidentes fossem quais fossem e em qualquer língua. A mim que ninguém podia supeitar fazer o sucesso que faz hoje mundo afora, Iara, uma primavera de “finesses”, Marlene e os beliscões de brincadeira que doíam, Pitucha graça infantil e de uma habilidade de Dag Hammar Skjoeld em quebrar galhos, Ana, a beleza clássica da morena levantando suspiros nas plateias, as reuniões infalíveis na casa de Alba, Chico Magaldi o prestativo e calmo, Tarcísio que conhecim em Juiz de Fora e era uma promessa operística, Jonas, plácido, um santo mudo, balançando as sobrancelhas, Beti o lírico do violão, Nélio, seu bom humor e ... gargalhada, Roberto seu bigode, contando casos, Carmem Lúcia, um suspense e inteligência aguda, e Maria Lúcia, que já esgotou os adjetivos dos jornais e que foi definida surrealística e primitivamente por aquele fazendeiro de Baurú, na melhor imagem que ele pôde: “Moça, a senhora é um verdadeiro boi cantando!”

Affonso Romano é o quinto da esquerda para a direita nesta foto do Madrigal

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