Copiar uma partitura nunca é apenas copiar. Quanto mais trabalho com repertório antigo ou com a obra de compositores com os quais adquiri alguma familiaridade, mais isso fica claro para mim. Foi assim, por exemplo, com Hostílio Soares. Depois de algum tempo convivendo com seus manuscritos, comecei a reconhecer procedimentos, maneiras de escrever, recorrências. E então aparecem aquelas passagens em que alguma coisa não está clara e é preciso decidir. Nesses momentos, o trabalho do copista é colocado à prova.
Mas nem precisamos chegar a situações tão complexas. Para mim, quando se copia, sempre se está editando. A escolha do tamanho da página, a distribuição dos sistemas, a quantidade de compassos em cada linha, o tamanho das fontes, o lugar de uma indicação de dinâmica, a maneira de preservar as muitas marcas deixadas pelo compositor: tudo isso exige decisões. Pode parecer apenas uma questão gráfica, mas é também um compromisso muito profundo com o trabalho de outra pessoa.
Uma partitura manuscrita frequentemente traz dificuldades de leitura, a não ser quando estamos diante de um compositor ou copista com excelente caligrafia. Há manuscritos que são verdadeiros trabalhos de artesania. A digitalização, porém, não resolveu automaticamente o problema. Uma partitura feita no computador sem cuidado com o layout pode ser tão ruim quanto um manuscrito difícil de decifrar.
Quem trabalha com coro conhece bem isso. Uma edição com poucos compassos por página e fontes enormes obriga o cantor a virar páginas o tempo inteiro. No extremo oposto, encontramos aquelas partituras em que tudo foi espremido para economizar papel. Letras pequenas, sistemas amontoados, texto apertado. Economizam-se algumas folhas e perde-se muito durante o ensaio.
Uma boa partitura, ao contrário, a gente reconhece quase no primeiro olhar. Ela deixa a música aparecer. E para isso o copista precisa conhecer também o instrumento para o qual está trabalhando. No caso do coro, há questões muito específicas. É preciso pensar nas vozes, nos divisi, no texto, nas entradas e até na maneira como os cantores acompanharão determinada passagem. Às vezes vale a pena preparar partes separadas simplesmente porque aquilo facilitará enormemente a leitura.
Vejo isso no trabalho que o Carlão (Carlos Henrique, para os íntimos) vem fazendo para o Madrigale. Ele é meticuloso, cuidadoso e caprichoso, três qualidades que espero de um bom copista. Mas há outra coisa importante: ele é músico. Portanto, não está apenas colocando notas no computador. Observa aquilo que está preparando e pensa no conjunto que utilizará aquele material. Muitas vezes tem a paciência de separar partes para que os cantores possam ler melhor. Parece detalhe. No ensaio, deixa de ser.
Quando trabalhamos com fontes antigas, o problema fica ainda mais interessante. Uma rasura, uma nota duvidosa, uma dinâmica colocada num lugar estranho, versões diferentes da mesma passagem: de repente, já não basta enxergar o que está no papel. É preciso conhecer a escrita daquele compositor, comparar, desconfiar e tomar uma decisão. Foi uma parte importante do meu trabalho com Hostílio e continua sendo uma das coisas que mais me interessam nesse tipo de pesquisa.
Numa edição crítica, isso fica explícito: o editor interpreta as fontes antes que o intérprete possa interpretar a obra. Mas mesmo numa simples cópia há escolhas sendo feitas. Por isso tenho dificuldade com a ideia do copista como alguém que apenas transfere notas de um lugar para outro. Um bom trabalho de edição quase desaparece quando usamos a partitura. O cantor encontra o que precisa encontrar, o regente consegue trabalhar, a página vira no lugar certo, as informações estão claras e a música segue. Talvez justamente por funcionar tão bem, ninguém pense em quem fez aquilo. Até aparecer uma partitura ruim. Aí todo mundo se lembra do copista.
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