domingo, 1 de março de 2026

O ensaio como espaço ético (uma reflexão)

O que penso de um ensaio?

O ensaio, para mim, não começa na partitura, começa na relação. E, ao longo dos anos, fui aprendendo que ensaio não é apenas espaço técnico, mas é, sobretudo, um espaço ético. 

Antes do primeiro acorde, há o café, esse pacto silencioso que diz: estamos aqui juntos. O ensaio começa ali, com alguns minutos compartilhados, conversa solta, uma preparação mais humana que vocal. Se esse pequeno rito falha, algo já se desloca. O trabalho pode até acontecer, mas falta o eixo.

Costumo iniciar com um vocalize que não tem a função principal de aquecer vozes, mas de harmonizar o ambiente, uma tentativa de alinhar respirações e intenções. E aí o ensaio acontece de maneira a preparar todo o grupo para uma apresentação qualquer tendo como um princípio muito meu de que o caminho de preparação sempre é muito mais importante e prazeroso do que o final, o concerto, em si. Ali se criam relações do coletivo e individuais que se refletirão na maneira como o conjunto se mostrará para a comunidade que o aguarda.  

Sobre relações individuais, é claro que já falhei nisso. A tentativa de harmonia nem sempre é possível e bem conduzida. Já expus cantores com palavras desnecessárias. Já confundi frustração musical com dureza de caráter. O tempo ensina, mas não apaga o que foi dito. Liderar um grupo é lidar com poder, e poder mal administrado deixa marcas. 

Costumo dizer que tento ser um “ditador benevolente”, porque há uma ordem a manter e um coro não se constrói na dispersão. Mas liderança não é imposição constante. Percebo que ultrapassei a medida quando o clima muda, quando a cobrança começa a retirar segurança de um naipe inteiro. A tensão é um termômetro e se ela paralisa, algo está errado.

Erro nunca me incomodou, negligência, sim. Quando instruções claras são ignoradas por distração ou desatenção, o problema deixa de ser técnico e se torna relacional. O tempo do ensaio pertence a todos e desperdiçá-lo é uma forma de desrespeito coletivo.

Há também os silêncios difíceis, o silêncio de quem não fala o que pensa e permite que outros assumam o confronto. Esse tipo de silêncio corrói o grupo, cria desconforto, afasta os novos cantores. Como líder, aprendi que sempre participo da desarmonia quando ela surge porque não há neutralidade possível.

Já vivi ensaios tecnicamente eficientes e humanamente pobres. E já vivi o contrário: encontros imperfeitos na execução, mas densos de presença e compromisso. O que permanece não é apenas o resultado musical, mas a qualidade do vínculo que sustenta o som.

Um ensaio eticamente saudável exige participação integral. Não apenas vozes afinadas, mas responsabilidade, escuta, preparo e respeito pelo trabalho comum. A boa qualidade musical não nasce isolada da convivência. Ela é consequência de um ambiente em que todos assumem sua parte.

Aprendi que o som revela o clima... Sempre revelou.





 


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