quinta-feira, 12 de março de 2026

Madrigal Renascentista (1959) - nem sempre o sucesso acontece em casa ou "em casa de ferreiro, espeto é de pau".

Depois da excursão pelo sul do país, que havia projetado o nome do Madrigal Renascentista para além de Minas Gerais, o grupo voltou a se apresentar em Belo Horizonte. O concerto aconteceu no auditório do Colégio Izabela Hendrix, em 26 de agosto de 1959, e marcava também uma despedida temporária de Isaac Karabtchevsky, que em outubro retornaria à Alemanha para mais uma etapa de estudos.

Curiosamente, essa apresentação chama atenção por um motivo pouco habitual na trajetória do coro: ela não empolgou o público.

Não se tratava de uma execução ruim. Pelo contrário. O cronista João Marschner, escrevendo no Estado de Minas, reconheceu que o Madrigal estava tecnicamente excelente naquela noite. O que teria faltado, segundo ele, foi outra coisa, aquilo que muitas vezes decide a atmosfera de um concerto: o calor da comunicação com a plateia. O próprio crítico registrou a situação de maneira direta: o Madrigal pareceu ressentir-se da frieza do público, e à apresentação faltou justamente o “calor da transmissão”, elemento que ele considerava uma das marcas do grupo.

Esse tipo de situação é conhecido por qualquer artista. Às vezes, o público da própria cidade reage com maior reserva, enquanto plateias de fora acolhem o trabalho com entusiasmo. Em casa, por alguma razão difícil de explicar, o vínculo pode ser mais frio.

Naquela noite, segundo Marschner, o ambiente começou a mudar apenas quando entrou em cena a solista Maria Lúcia Godoy. Com o início das peças folclóricas e, especialmente, em I Got Religion, o gelo finalmente se quebrou. O crítico chegou a escrever, com evidente admiração, que o “misticismo vocal” de Maria Lúcia tinha a capacidade de comover até mesmo os minerais.

A palavra “místico” aparece com alguma frequência nas críticas da época quando se referem às apresentações do Madrigal Renascentista. Talvez porque, naquele contexto musical brasileiro ainda pouco acostumado a coros de concerto com grande refinamento técnico, ouvir um conjunto desse nível pudesse realmente parecer algo incomum, algo quase mágico.

Também é possível que houvesse ali uma questão de repertório. O programa do Madrigal seguia um percurso bastante elaborado: começava com música da Renascença, atravessava diferentes períodos da história da música e só na parte final chegava aos compositores brasileiros. Mesmo então, as obras nacionais apareciam em tratamento erudito, o que talvez fosse exigente para um público que ainda não tinha o hábito de ouvir o coro como instrumento de concerto.

Esse episódio lembra algo simples e verdadeiro na vida artística: nem todo triunfo acontece diante do público da própria casa. Às vezes é justamente fora dela que o trabalho encontra sua recepção mais calorosa.


🎬 Madrigal Renascentista - I got religion

 

 


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