Tenho contado aqui muitas histórias a partir da minha própria memória de regente, mas sempre me pareceu importante lembrar que um coro não é feito apenas de quem o dirige. Ele é, sobretudo, a soma das trajetórias individuais de quem canta.
Bruno Barcelos, o Tio, é um amigo de muitos anos que reencontrei em Lisboa e que só fez aumentar laços que trazemos de longa data. Há alguns dias, pedi a ele que escrevesse um pequeno texto sobre sua experiência no Coral Acesita.
O Bruno passou pelo Acesita ainda muito jovem e construiu, a partir dali, uma relação profunda com a música. Pedi então que registrasse, com suas próprias palavras, como foi aquele início: a chegada ao coro, as descobertas, as dificuldades e os momentos que ficaram marcados.
No meio do texto ele faz algumas referências generosas a mim. Confesso que fico sempre um pouco sem jeito com esse tipo de coisa... quem trabalha com coro sabe que os caminhos são construídos por muita gente ao mesmo tempo. Ainda assim, mantive o texto exatamente como ele escreveu. A memória de quem viveu a experiência merece ser preservada sem edição.
O que vem a seguir é, portanto, um relato de dentro: a história de alguém que chegou tímido à porta de um ensaio e acabou encontrando ali um lugar decisivo na própria vida.
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Eu cheguei ao Coral Acesita meio que pelos meus primos. A Mabel era cantora, muitas vezes solista, e o Serginho também cantava lá. Dois irmãos. Eu ficava curioso pra ver aquele processo de cantar “por dentro”, sabe? Na época eu estava estudando música, tocava teclado, e tinha alguma coisa ali que me puxava, uma afinidade mesmo.
Comecei a acompanhar a Mabel em casamentos: ela cantava, eu
tocava. Até que um dia ela me chamou pra conhecer o coro.
No primeiro dia que eu cheguei lá… eu cheguei, mas não
entrei. Aquilo era grande demais pra gente, que vinha de uma origem mais
humilde. A Fundação Acesita, a música clássica, era um outro ambiente pra mim,
outro universo... e era muito maior do que eu.
No segundo dia, cheguei um pouco mais perto, mas ainda não
entrei na sala. Fiquei só olhando, meio escondido, observando as pessoas
fazendo vocalize sem a menor noção do que era.
Só no terceiro dia eu entrei de verdade. Precisei de coragem, mas foi. E já naquele dia eu vi meus primos, e todos começaram a me chamar de
Tio porque sempre fui Tio desde criança. Então fui acompanhando, caminhando, me
aproximando do universo coral. Já de cara, como tenor, aprendi minhas partes,
mas o Arnon, maestro, virou e falou: “Você vai cantar, não?”
Talvez eu não tivesse aprendido tão bem assim mesmo… errei um
bocado. Fui cortado do Gloria de Vivaldi e fiquei com ódio daquele maestro.
Pensei: “Agora eu vou estudar de verdade.”
E estudei.
Fui estudando, fui cantando os repertórios com o Coral Acesita. Minha primeira viagem pra Belo Horizonte foi com o coral. Eu passava
mal demais em viagem de ônibus: vomitei, passei mal, aquela confusão. Mas comi
uns bons lanchinhos e cantei em algo de
natal na sede da Acesita, lá em Belo Horizonte, chique demais.
Tiveram peças do repertório que me marcaram profundamente. Um deles
é o Aleluia do Ronaldo Miranda (eu vivo enchendo o saco do Arnon pra refazer,
porque não existe gravação). Esse Aleluia tem um pouco daquela atmosfera do
Aleluia de Thompson: não é festivo, é introspectivo. O tema vai se apresentando
nas diversas vozes. É difícil de cantar, mas é lindo. Arnon tem preguiça de
refazer, acho.
Outro momento marcante foi cantar, junto com o Madrigale, o
Requiem de Mozart. Acho que foi a primeira peça de grande envergadura que fiz.
Estudei tanto que sei de cor até hoje, mesmo sem estudar música há anos.
E não posso deixar de falar das Sete Palavras de Cristo, do
Hostílio Soares. O Arnon me apresentou o Sr. Hostílio — na época eu não fazia
ideia de quem era… até hoje não sei! (brincadeira). Conheci sua obra por esse
intermédio, e aquilo foi decisivo pra mim.
Por meio do Arnon e do Coral Acesita, eu me senti estimulado
a estudar música e a construir a minha carreira, a minha vida, que seguiu a
partir dali. Eu sempre digo que existem professores e existem mestres, aqueles
que aparecem na nossa vida e mudam o rumo das coisas. O Arnon foi um desses
mestres pra mim. Na verdade, Arnon e Kátia. Sem querer puxar saco aqui no blog
dele, mas a gente precisa referenciar o que é justo, né? Ele não precisa nem
saber disso, nem se sentir “mestre”, nem é esse o objetivo. Mas pra mim foi.
Foi uma mudança de vida.
E pra terminar, um episódio curioso, e isso aqui não é pra
responder por WhatsApp, não, tá? É só pra registrar publicamente, porque o post
é meu, mesmo que o blog seja teu.
Uma vez, com 16 anos, eu compus uma Ave Maria. Você tocou lá
no tecladinho depois do ensaio. Era até bonita. Nunca mais vi aquela partitura.
Você tem isso? Você roubou?
Brincadeiras à parte, precisava fechar dizendo o seguinte: o
Coral Acesita não foi só um coro pra mim. Foi um lugar de formação humana,
estética e afetiva. Foi ali que eu aprendi a ouvir o outro, a sustentar uma voz
dentro de um coletivo, a entender que música não é vaidade, é escuta,
disciplina e entrega.
A música coral me ensinou que ninguém canta sozinho. Que o
sentido aparece no encontro. E que, quando a gente se coloca a serviço de algo
maior que si, alguma coisa se transforma pra sempre.
O Acesita foi esse lugar de travessia. Um espaço onde eu
pude sonhar maior do que a minha origem permitia imaginar, errar, aprender,
insistir e crescer. E o Arnon, querendo ou não, foi um desses mestres que
mudam a direção da vida sem fazer alarde.
Fica aqui minha gratidão profunda à música coral, ao Coral Acesita e a tudo o que nasceu ali e segue ecoando até hoje. Algumas vozes a
gente esquece. Outras ficam ressoando pela vida inteira.
Que linda história e vivência com a música, Tio Bruno! Cantei no Madrigale até o ano 2000 e minhas lembranças são muito vivas até hoje!
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