Depois de escrever sobre o ensaio como espaço ético (01/03/26) meu amigo Lumumba me provocou:
Arnon, achei que você deu um foco maior em aspectos negativos do ensaio. Você poderia reforçar a importância da "repetition", da excelência que só se pode alcançar com o esforço continuado, da importância dos textos e da dicção, tantas outras coisas... Você deve cultivar a sua maior qualidade, a positividade, não acha?
Ele tem razão. Então, vamos lá:
Um coro se constrói na repetição. Não apenas para fixar notas, mas para formar segurança. Muitos cantores não são leitores fluentes de partitura. Aprendem ouvindo, repetindo, incorporando. E fazem isso com uma consciência admirável. Às vezes, com mais segurança do que músicos que leem com desenvoltura, mas não internalizam.
A repetição é o laboratório do coro.
No início, ela é descoberta. Depois, vira ferramenta. E, quando a peça já está aprendida, pode parecer excesso. Alguns veem como perda de tempo. Eu não vejo assim. A repetição, quando bem conduzida, revela detalhes que passam despercebidos na primeira leitura: um ajuste de afinação, um equilíbrio mais fino de vozes, uma respiração conjunta que muda tudo.
Excelência não nasce do acaso. Afinação importa. Fraseado importa. Equilíbrio de naipes importa. E a palavra importa talvez mais do que tudo. Um coro existe na palavra. Cantar afinado sem clareza de texto é reduzir a música a exercício sonoro. Já interrompi ensaios muitas vezes por causa de dicção, não por obsessão formal, mas porque o texto é parte essencial do compromisso artístico.
Há quem pense que insistir nesses detalhes é rigor excessivo. Eu penso que é respeito. Sustentar um grupo por décadas exige crença. Crença na missão, no repertório desafiador, na parceria construída com confiança. Exige também positividade, não no sentido ingênuo, mas na convicção de que vale a pena repetir mais uma vez, ajustar mais um acorde, refazer uma frase até que ela encontre sua forma.
O ensaio é espaço de ética, sim. Mas é também espaço de construção paciente. E construção não acontece sem repetição. Para além disso, como bem me disse o Lumumba num outro tempo: em francês, ensaio é repétition.
Meu amigo Lumumba:
Blog do Maestro Arnon: Lumumba: voz e memória de um Madrigal
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