sábado, 14 de março de 2026

O disco do Madrigale - 1995 (por Gustavo Fonseca)

(Esse post foi escrito por Gustavo Fonseca, cantor do Madrigale)

Logo no início da história do Madrigale, nós gravamos um disco. O ano era 1995, eu tinha 17 anos de idade, e pouco mais de um ano como integrante do coro.

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Aqui é importante, para que os mais jovens entendam o que esse processo representava para o grupo, dar um contexto da época e explicar a situação dos recursos tecnológicos disponíveis.

Hoje é possível gravar um álbum usando um smartphone qualquer, editá-lo, mixá-lo, masterizá-lo e incluir overdubs com aplicativos gratuitos, enviá-lo para as plataformas digitais facilmente por meio de distribuidoras, e esse processo pode ser aprendido rapidamente com inúmeros tutoriais disponíveis na Internet. Com o mesmo smartphone se fazem facilmente a foto e a capa do álbum. Sem falar nas recentes tecnologias de IAs generativas que já são acessíveis a qualquer um, e simplificam esse processo de forma exponencial.

Em 1995, as pessoas não tinham smartphones, nem mesmo celulares. Os computadores eram uma porcaria e não tínhamos acesso à Internet. Não havia gravadores de CDs domésticos acessíveis. Gravadores de som portáteis eram dispositivos muito rudimentares que usavam microfones toscos e fitas cassete, e a transferência desses áudios analógicos para mídias profissionais era absolutamente inviável. Cabe dizer que a qualidade dos áudios era tão pavorosamente baixa que mesmo que fosse possível transferi-los, o resultado não valeria a pena. Nós vivíamos uma era diferente na economia da produção musical.

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Resumindo, gravar um álbum no sistema do-it-yourself em 1995 era impossível, portanto essa era uma empreitada reservada a quem tivesse acesso a uma equipe profissional de gravação, com equipamentos profissionais, e orçamento de produção semelhante ao de um carro zero.

Então quando o Maestro Arnon Oliveira chegou com a notícia bombástica de que o Madrigale gravaria um disco, isso foi recebido com absoluta euforia, e até um pouco de incredulidade, pelo grupo. A aventura foi possível porque na época conseguimos um patrocinador: um (raríssimo) empresário que era entusiasta da música erudita e do canto coral, e decidiu nos dar, além de uma ajuda de custo mensal, o apoio financeiro para gravarmos o disco.

E aqui temos outro recorte temporal: a proposta inicial era a gravação de um LP em vinil. Num determinado momento a aposta subiu e foi decidido que seria um CD, tecnologia mais nova, mais cara e mais desejável na época. Mal sabíamos nós que hoje, mais de 30 anos depois, um vinil seria uma relíquia profundamente revalorizada, enquanto CDs viraram lixo inútil na maioria dos lares.

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Foi assim que, no inverno de 1995, entramos no antigo auditório da Usiminas, em Belo Horizonte, para dois dias de gravação. Empolgação e apreensão foram constantes e simultâneas durante esse período.

Eu consigo me lembrar de dois perrengues bravos, passados nesses dias.

O primeiro foi a unha do meu dedo indicador direito, que decidiu se quebrar justamente na véspera da gravação do violão da faixa “Passarim”, e para conseguir tocar eu tive que improvisar uma solução detestável com supercola. Aliás, a participação do violão, que hoje seria muito simples através de uma sobreposição com mixagem separada, foi feita ao vivo junto com o coro, o que complicou bastante o posicionamento de microfones e a equalização do som em tempo real. O tempo passou, mas eu ainda me lembro bem da aflição espantosa que eu senti com isso.

O segundo perrengue foi uma notinha, durante a gravação da faixa “Alleluia”, que não soou correta e comprometeu uma sequência harmônica da peça. Um problema novo numa peça antiga que já tinha sido apresentada perfeitamente dezenas de vezes no passado. Depois de perdermos uns dois takes e a nota continuar não saindo, bateu a preocupação geral. O Arnon Oliveira ainda não era o grande maestro de hoje, mas um regente bem jovem e muito menos experiente. Ainda assim, ele tirou o coro do palco, levou todo mundo lá para o fundo do teatro e, com a partitura e os cantores na mão, ele achou e matou a nota errada. Voltamos para o palco e gravamos a faixa.

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Após alguns percalços, causados por falhas dos equipamentos, além de nossa profunda inexperiência com o processo de gravação, e também de uns resfriados de alguns cantores, terminamos a gravação. Depois de um tempo interminável aguardando mixagem, masterização e prensagem dos discos, recebemos uma caixa enorme cheia de CDs lindos, com capa belíssima feita pela Juliana Palhares, e encarte ilustrado com as fotos profissionais que tiramos no Museu Abílio Barreto.

Eu confesso que o resultado, no meu ouvido, não foi bom e até hoje não é. Depois de escutar o disco uma vez, eu nunca mais consegui escutá-lo inteiro de novo. Às vezes paro para ouvir parte de uma faixa, mas o som me parece duro e frio. Ainda assim, eu considero que essa experiência é meio definidora de alguns aspectos da minha vida, e me ajudou a entender e dominar bem melhor todos os muitos outros processos de gravação dos quais eu participei ao longo dos anos, como cantor, instrumentista e produtor.

E que venham novas gravações para o Madrigale, no futuro.


A capa do disco (arte de Juliana Palhares)




A turma do disco
Arnon, Sandra, Letícia, Pollyanna, Kátia, Daniela, Fernanda, Clélia, Joana, Juliana, Luciana, 
Joubert, Decat, Gustavo, Ricardo, Sérgio, Marco Paulo, André, Felipe.

Gustavo Fonseca




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