Um programa de coro pode revelar mais do que um momento artístico. Pode revelar uma ambição.
Revisitei um programa do Madrigal Scala de 1992 e encontrei um coro que não tinha receio de se afirmar. Vejam só: a primeira parte do concerto já indicava um horizonte: Dom Pedro de Cristo, Orlando de Lassus, Palestrina, Villa-Lobos, negro spiritual, Edwin Fissinger. Um arco que atravessava séculos, estilos e geografias sem pedir licença.
Abrir com O Magnum Mysterium e seguir para o Super flumina Babylonis intentava mostrar que o coro tinha clara a ideia e busca de homogeneidade de timbre, precisão na afinação modal e compreensão do fluxo polifônico. Isso porque a Renascença se canta com disciplina e consciência de linha. No mesmo programa, aparece um negro spiritual, uma canção latino-americana, além de Gershwin, Ary Barroso, José Rodrix e Vandré. Uma segunda parte variada e eclética.
Eu sempre gostei da variedade no repertório. O tempo é que me fez "especialista" em alguns repertórios e olhar para aquele tempo me impressiona porque eu tinha já a coragem de sustentar contraste sem fragmentação. Ali era um coro jovem, porque era jovem apesar dos cantores experientes, assumindo um repertório que demandava maturidade técnica e postura artística. Ele não se acomodava em arranjos confortáveis, era um conjunto que se expunha. Cada obra exigia um tipo de emissão, de fraseado, de escuta interna.
Sempre acreditei que o repertório forma o coro e essa é uma verdade que se confirma quando olhamos para aquele coro lá trás. Um grupo que canta Lassus aprende sobre arquitetura. Um grupo que canta spiritual aprende sobre pulsação interna e respiração coletiva. Um grupo que canta arranjos variados precisa lidar com tensão histórica e intenção textual.
Em 1992, o Madrigal Scala apresentava um repertório variado e se construía nele. Hoje, ao rever esse programa, o que salta aos olhos não é apenas a variedade, mas a coerência de propósito. Havia ali uma crença na música como formação, técnica e humana. Não se escolhe repertório desse porte por acaso. Escolhe-se porque se acredita que o grupo pode crescer dentro dele...
E cresceu, pois nenhum coro vive 35 anos por acaso.
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