segunda-feira, 9 de março de 2026

Entre a Música e a Poesia: Memórias de uma Residência Artística na França (por Renato Goulart)

(Na sequência do post de ontem, o compositor Renato Goulart resolveu nos presentear com a narrativa da experiência que resultou na peça The Daughter. Vamos lá...)



No final de 2016, entre os meses de outubro e novembro, embarquei em uma jornada que se revelaria profundamente transformadora: minha primeira residência artística. Viabilizada por meio de um projeto de financiamento coletivo, que contou com o apoio de vários amigos e familiares que acreditaram no meu trabalho, pude realizar essa etapa fundamental da minha formação. O destino era o Camac – Centro de Artes, situado na pacata e charmosa comuna de Marnay-sur-Seine, no interior da França. Levei na bagagem um objetivo claro: dedicar-me integralmente à composição de uma nova obra para orquestra sinfônica. O que eu não esperava era que o verdadeiro presente daquela temporada seria o encontro com outras linguagens artísticas e as conexões humanas que floresceriam ali.



Camac


Um Caldeirão de Criatividade

Apesar do foco inicial na música, a experiência no Camac me proporcionou algo raro e valioso: a imersão em um ambiente multidisciplinar. A residência reunia artistas de origens e áreas completamente diferentes, criando um fértil caldeirão de ideias. Ali, ao lado de músicos, conviviam pintores, poetas e artistas plásticos, cada um com seu processo criativo e sua visão de mundo. Foi nesse contexto de troca constante que tive a sorte de conhecer a poeta norte-americana Marci Vogel, vinda da ensolarada Los Angeles. Ela estava na França para uma pesquisa literária sobre a cultura francesa, mas foi ao compartilhar sua poesia que nossos caminhos artísticos se entrelaçaram.

Ao folhear alguns de seus livros, um poema em especial me saltou aos olhos e, mais do que isso, ressoou imediatamente em minha imaginação musical: “The Daughter Who Flew Through the Atmosphere & Into a State of Nature” (A Filha Que Voou Através da Atmosfera e Entrou em um Estado de Natureza). A leitura daquele texto não foi apenas intelectual; foi uma experiência sensorial. Visualizei um movimento ascendente, movimentos harmônicos que representavam um flutuar, o etéreo. Senti a textura musical se dissolvendo, como se a matéria se tornasse gradualmente mais sutil, flutuante, até atingir um estado de pura natureza e suspensão. Era como se o poema já contivesse em si uma partitura invisível, esperando para ser revelada em notas.


Renato Goulart e Marci Vogel


Viagem no Tempo pelas Páginas da História

As descobertas na residência, porém, não se limitaram ao convívio com os artistas contemporâneos. Um dos tesouros que encontrei estava silenciosamente guardado na biblioteca do Camac. Logo ao lado do piano, repousava uma coleção histórica fascinante: uma vasta seleção de edições do jornal parisiense L'Illustration. Para quem, como eu, é apaixonado por história e cultura francesa, foi como abrir um portal para o passado.

Para contextualizar, o L'Illustration foi um semanário de grande prestígio, cuja primeira edição data de 1843. Ele detém marcos importantes no jornalismo, como ter sido o primeiro jornal francês a publicar uma fotografia, em 1891, e a primeira fotografia a cores, em 1907. A coleção do Camac reúne um acervo impressionante que cobre justamente o período áureo da publicação, de 1843 a 1914, abrangendo mais de sete décadas de registros históricos até o limiar da Primeira Guerra Mundial.

Ao folhear aquelas páginas, tive era uma experiência única. A qualidade das gravuras e, posteriormente, das fotografias, era de uma riqueza impressionante. Ao explorar os índices, fiz algumas descobertas que me tocaram particularmente: pequenas notas e artigos que mencionavam compositores franceses que admiro. Encontrei, por exemplo, uma reportagem sobre os ensaios da ópera Thaïs, de Jules Massenet, e uma breve nota anunciando a publicação da peça para piano Rêverie, de Claude Debussy. Era como se a história da música francesa sussurrasse aos meus ouvidos diretamente daquelas páginas.





O Olhar do Pintor e a Gênese das Obras

Outro encontro marcante foi com o pintor tcheco Jaroslav Grodl. Sua obra se dedicava a capturar a beleza singela das cenas do cotidiano, e eu acabei me tornando, sem querer, um de seus modelos. Foi uma surpresa me ver em suas telas: em uma delas, estou na sacada da residência, observando o jardim durante uma pausa para o chá; em outra, ele me retratou trabalhando ao piano, durante o processo de composição. Ver meu próprio trabalho sendo observado e recriado pelo olhar sensível de outro artista foi uma forma de validação e inspiração muito especial.

Todo esse caldeirão de influências – a poesia de Marci, o silêncio histórico da biblioteca, o olhar de Jaroslav e a paisagem serena de Marnay-sur-Seine – começou a frutificar. Durante a residência, tive a oportunidade de apresentar uma primeira versão da peça inspirada no poema de Marci. Foi um momento intimista e poderoso: eu ao piano, executando a música enquanto a própria poeta fazia a leitura de seus versos. Mais tarde, essa obra ganharia uma nova roupagem, sendo finalizada em uma instrumentação para coro a capella.

Paralelamente, as sementes da obra orquestral que eu viera buscar começaram a germinar. O resultado foi “Impressões Francesas”, uma peça sinfônica em três movimentos, cada um dedicado a um local que marcou minha passagem pelo país: a tranquilidade de Marnay-sur-Seine, a energia boêmia de Montmartre em Paris, e a grandiosidade histórica do Castelo de Versalhes. A peça foi concluída em 2017 e apresentada no mesmo ano pela Orquestra Filarmônica de Minas Gerais.


Jaroslav Grodl



Reencontros que Atravessam Fronteiras

O tempo passou, mas os laços criados na França permaneceram vivos. Em 2018, fui selecionado para participar do festival Choral Arts Initiative em Los Angeles, um encontro dedicado a compositores contemporâneos de música coral. A oportunidade não poderia ser mais adequada: levaria minha peça para ser apresentada nos Estados Unidos. E, por uma feliz coincidência, LA também era a cidade de Marci Vogel. Pude reencontrá-la e, mais uma vez, unir música e poesia, desta vez em solo americano, durante uma primeira leitura da obra.

Esses reencontros se repetiram de outras formas, em outros lugares. Anos mais tarde, durante uma passagem por Berlim, encontrei Nina Ansari, a talentosa artista iraniana que também conheci no Camac. Conversamos sobre nossos percursos, as cidades que agora habitamos — ela atualmente reside na capital alemã — e como aquelas semanas em Marnay-sur-Seine seguiram ecoando em nossos trabalhos.

Ao olhar para trás, percebo que a residência no Camac foi muito mais do que um período de composição. Foi um lembrete poderoso de que a arte floresce no encontro, na troca e na abertura para o inesperado. As obras que nasceram ali carregam não apenas minhas notas, mas também um pouco da poesia da Marci, das cores do Jaroslav e dos ecos da história que sussurravam nas páginas do L'Illustration. E tudo isso só foi possível graças à generosidade de tantas pessoas que, ao apoiarem o financiamento coletivo, tornaram essa experiência realidade.


https://www.renatogoulart.mus.br/blog

https://www.instagram.com/camac_art/  Marci Vogel: https://marcivogel.com/ 

Jaroslav Grodl: https://www.pure-beauty.cz/ Nina Ansari: https://www.ninaansari.com  

  

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