Ontem, o Madrigale voltou a cantar em um concerto.
A palavra “retorno” parece simples, mas não é. Entre o
último ensaio antes do recesso e este concerto na Igreja São Francisco de
Assis, atravessamos mais do que semanas de pausa. Foi um tempo de silêncio, de distância,
de perguntas não ditas e, no meu caso, de um refazimento de ideias, valores e
importâncias. Para além disso, foi um tempo de respiro depois de tensões
acumuladas, de conflitos silenciosos, de redefinições internas, não apenas em relação
ao coro, mas à vida.
Pausas, quando honestas, não são abandono. São respiração. Confesso que houve momentos, sim, em que temi que o Madrigale não voltasse a ensaiar. Pensei em encerrar o ciclo, “fechar a fábrica” e seguir outros caminhos. Natural. Todo processo longo atravessa seus abalos... Mas, nesse mesmo silêncio, algo foi se reconstituindo dentro de mim: a compreensão de que o Madrigale não é apenas um grupo que eu conduzo. Eu sou o Madrigale, e assumir isso novamente foi parte essencial desse tempo.
Cantar depois de uma pausa é sempre um gesto de confiança: confiança de que o vínculo ainda sustenta o som. Voltar a cantar ontem, naquele espaço simbólico de uma Belo Horizonte que nos viu nascer e crescer, foi como recolocar o corpo em um espaço conhecido, mas não idêntico ao que deixamos. A Igrejinha tem a capacidade de ampliar o som e, ao mesmo tempo, revelar fragilidades, e a acústica expôs, sob certo aspecto, o que somos neste instante.
O primeiro acorde trouxe mais do que afinação. Trouxe memória... Memória dos que estiveram, dos que saíram, dos que ficaram. Memória das dúvidas que rondaram o grupo nos últimos meses. A primeira interação de fala com o público foi para, em um ato pensado, dizer ao público (e a todo o coro) que “nós somos o Coro Madrigale”, e isso não foi fácil. Essa pequena frase, tão intensa e sincera, quase me fez chorar (e essa não foi a primeira vez que tive de me segurar durante todo o concerto).
Percebi, enquanto regia, um lugar que estava meio esquecido havia algum tempo: o lugar da confiança e da alegria, tão próprios da existência do Madrigale. A sensação de sermos um corpo integrado. Eu e os cantores. Os cantores e eu. Nós. Sim, porque o Madrigale é um conjunto que se faz pela força do grupo e não pela soma de individualidades.
Não foi difícil reativar os processos. Bastou pouco tempo para que os naipes se reconhecessem, testassem novamente a própria segurança e a música se encontrasse dentro da nossa naturalidade. Não se trata de desligar e religar no mesmo ponto. Trata-se de retomar um fluxo que já tem história (33 anos de história) e que sabe, mesmo depois de abalos, onde está sua base. Isso porque um coro respira, sofre, amadurece.
E a igreja e o público estavam ali como testemunhas, ainda que não soubessem. As linhas de Niemeyer, a beleza da Lagoa ao redor, a imagem e proteção do meu tão amigo São Chiquinho. Ali, tudo convidava à interioridade, nada de afirmações. Ali, foi um gesto de continuidade.
Depois do último acorde, ainda na alegria plena de todos, troquei um olhar com o grupo e agradeci. Um agradecimento sincero, simples. Ali senti uma espécie de serenidade que não vinha de qualquer busca por perfeição técnica, mas da permanência. Sim, permanecemos, sorrimos, nos emocionamos.
O retorno não apaga o que passou, mas incorpora. E talvez seja essa a maturidade possível neste momento do Madrigale: seguir cantando sem ignorar as fissuras, sustentando o som com a consciência de que cada ciclo exige revisão, cuidado e escuta.
Ontem, na Pampulha, o Madrigale voltou. E, ao voltar, reafirmou o que é. Nessa reafirmação, dizemos com muita alegria: nós somos o Coro Madrigale!!!
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