Em 2017 recebi um e-mail do compositor Renato Goulart. Ele me enviava uma peça coral recém-composta, The Daughter, sobre um poema da poeta norte-americana Marci Vogel. A mensagem vinha acompanhada da partitura, de uma gravação ao piano e de um comentário que me chamou a atenção: ele achava que a estética da peça tinha muito a ver com o Madrigale.
Eu gostei imediatamente da provocação.
Na época, respondi que estava justamente pensando em montar
um concerto dedicado ao repertório coral do século XXI e a peça entrou para
aquele campo de ideias que às vezes ficam amadurecendo em silêncio.
Três anos depois, em 2020, no meio da pandemia, Renato voltou a me escrever. Agora com uma proposta concreta: realizar a gravação da obra. Estávamos no tempo dos coros virtuais e o Madrigale produzia a pleno vapor uma série de vídeos com repertórios diversos e foi justamente nesse contexto que The Daughter encontrou o seu caminho. Selecionei uma turma de cantores e partimos para a elaboração dessa difícil obra. Foi um processo trabalhoso, paciente e cheio de pequenos desafios técnicos, mas também profundamente simbólico, pois era a realização de uma peça musical que estava no plano das ideias e queria se tornar música numa realidade confusa e sensível.
E aquela peça que tinha chegado como uma “provocação” alguns anos antes encontrou finalmente a sua primeira vida sonora. E é assim: algumas músicas sabem esperar o tempo certo de nascer.
🎬 Coro Madrigale - The Daughter
The Daughter Who Flew Through the Atmosphere & Into a
State of Nature
(Marci Vogel)
If she were in Ovid, she might be
a tree, not Daphne, but another
racing through a blue slit
in the sky. Up, up―
the houses, miniature
squares. The streets,
nowhere she need ever travel
again. Some tangles
turn to knots, their laces
undone. Here,
sweet mortal, feel
the stepping out of shoe
into limb, the rising, root,
the leafing.
A Filha que Voou pela Atmosfera até um Estado de Natureza (Tradução livre)
Se ela estivesse em Ovídio, talvez fosse
uma árvore, não Dafne, mas outra
correndo por uma fenda azul
no céu. Para cima, para cima —
as casas, quadrados
em miniatura. As ruas,
lugares por onde ela nunca mais
precisará passar. Alguns emaranhados
se tornam nós, seus laços
desfeitos. Aqui,
doce mortal, sente
o sair do sapato
para o membro, a ascensão, a raiz,
o brotar em folhas.
(poema retirado do livro At the Border of Wilshire & Nobody - Ed. Howling Bird Press, Minneapolis, 2015)
Site da escritora: marcivogel.com
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