domingo, 8 de março de 2026

The Daughter, uma peça que esperou o seu tempo

Em 2017 recebi um e-mail do compositor Renato Goulart. Ele me enviava uma peça coral recém-composta, The Daughter, sobre um poema da poeta norte-americana Marci Vogel. A mensagem vinha acompanhada da partitura, de uma gravação ao piano e de um comentário que me chamou a atenção: ele achava que a estética da peça tinha muito a ver com o Madrigale.

Eu gostei imediatamente da provocação.

Na época, respondi que estava justamente pensando em montar um concerto dedicado ao repertório coral do século XXI e a peça entrou para aquele campo de ideias que às vezes ficam amadurecendo em silêncio.

Três anos depois, em 2020, no meio da pandemia, Renato voltou a me escrever. Agora com uma proposta concreta: realizar a gravação da obra. Estávamos no tempo dos coros virtuais e o Madrigale produzia a pleno vapor uma série de vídeos com repertórios diversos e foi justamente nesse contexto que The Daughter encontrou o seu caminho. Selecionei uma turma de cantores e partimos para a elaboração dessa difícil obra. Foi um processo trabalhoso, paciente e cheio de pequenos desafios técnicos, mas também profundamente simbólico, pois era a realização de uma peça musical que estava no plano das ideias e queria se tornar música numa realidade confusa e sensível. 

E aquela peça que tinha chegado como uma “provocação” alguns anos antes encontrou finalmente a sua primeira vida sonora. E é assim: algumas músicas sabem esperar o tempo certo de nascer.

🎬 Coro Madrigale - The Daughter

 


The Daughter Who Flew Through the Atmosphere & Into a State of Nature

(Marci Vogel)

 

If she were in Ovid, she might be

a tree, not Daphne, but another

racing through a blue slit

in the sky. Up, up―

the houses, miniature

squares. The streets,

nowhere she need ever travel

again. Some tangles

turn to knots, their laces

undone. Here,

sweet mortal, feel

the stepping out of shoe

into limb, the rising, root,

the leafing.


A Filha que Voou pela Atmosfera até um Estado de Natureza (Tradução livre)

Se ela estivesse em Ovídio, talvez fosse

uma árvore, não Dafne, mas outra

correndo por uma fenda azul

no céu. Para cima, para cima —

as casas, quadrados

em miniatura. As ruas,

lugares por onde ela nunca mais

precisará passar. Alguns emaranhados

se tornam nós, seus laços

desfeitos. Aqui,

doce mortal, sente

o sair do sapato

para o membro, a ascensão, a raiz,

o brotar em folhas.

 

(poema retirado do livro At the Border of Wilshire & Nobody - Ed. Howling Bird Press, Minneapolis, 2015)

 

Site da escritora: marcivogel.com


 


 

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