Há decisões na vida musical que, no momento em que acontecem, parecem apenas circunstanciais. Com o tempo, percebemos que elas marcam verdadeiras mudanças de percurso.
Minha saída do Madrigal Scala, em 1994, foi uma dessas passagens.
Naquele período eu começava a perceber com mais clareza as várias possibilidades de uma carreira como regente. O Scala era, para mim, um espaço muito importante de desenvolvimento: um coro intenso, musicalmente muito bom e que correspondia com seriedade às propostas que eu levava para os ensaios. Dentro do meio coral de Belo Horizonte, era também uma referência.
O ambiente do grupo era bom. Havia, de modo geral, um desejo coletivo de fazer o melhor pelo coro. Mas começava a aparecer uma diferença de expectativas. Ensaiávamos apenas uma vez por semana, aos sábados à tarde, e aquilo já me parecia insuficiente para o tipo de trabalho que eu imaginava desenvolver. Eu queria ampliar repertório, aprofundar processos, experimentar mais. Hoje vejo que, naquela época, eu ainda estava construindo minhas próprias ferramentas de ensaio e de condução artística, algo que só se desenvolve com o tempo.
O episódio que precipitou minha saída surgiu a partir de uma proposta de concerto que imaginei naquele momento. A ideia era reunir três coros: o Scala, o Madrigale e o Coral Acesita. Para mim, aquilo parecia uma oportunidade interessante de diálogo entre grupos em diferentes estágios de desenvolvimento. Mas a reação do coro me surpreendeu.
A comissão do Scala me procurou e explicou que muitos cantores não se sentiam confortáveis com a ideia. Havia o entendimento de que não faria sentido “emprestar” o nome do coro a grupos que ainda estavam iniciando seu caminho artístico. Hoje consigo compreender melhor as razões que estavam por trás daquela posição, mas, naquele momento, jovem como eu era, vivi aquilo como um sinal de que talvez eu encontrasse ali limites para desenvolver projetos mais amplos como diretor artístico.
Minha decisão foi então apostar completamente no Madrigale, um coro jovem que começava a nascer e que demonstrava acreditar nas ideias que eu queria experimentar.
O episódio foi doloroso. Ser confrontado em um projeto artístico nunca é simples, ainda mais para um regente jovem, cheio de convicções e também, naturalmente, de ego. Não sei dizer com certeza se hoje eu tomaria exatamente a mesma decisão. Talvez tivesse buscado outros caminhos de negociação, porque a experiência ensina a ouvir de outra maneira.
Olhando trinta anos depois, no entanto, percebo que aquela saída foi necessária para que minha trajetória continuasse. No Madrigale encontrei o espaço para desenvolver aquilo que eu buscava: pensar repertórios, construir um gesto próprio, experimentar ideias e desenvolver uma filosofia de trabalho coral.
Ao mesmo tempo, também reconheço que minha saída não foi, naquele momento, algo especialmente positivo para o Scala. Ainda assim, a história do coro seguiu seu caminho, e hoje existe entre nós um sentimento muito claro de respeito mútuo.
Quando penso no Madrigal Scala hoje, o sentimento que permanece é, sobretudo, gratidão. Foi ali que tive meu primeiro contato profundo com o universo dos coros adultos. Foi ali que muitas portas se abriram para mim como músico e regente. E certas portas, mesmo quando se fecham, continuam fazendo parte da casa onde aprendemos a viver.
Passados tantos anos, continuo olhando para o Madrigal Scala com grande respeito. Foi um coro fundamental na minha formação, e, por isso, mais do que recordar um episódio específico, prefiro guardar o Scala como parte essencial do caminho que me trouxe até aqui.
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